Esta a se tornar
cultura na política e nas interações sociais moçambicanas culpar-se o Outro
pelas nossas fraquezas/fracassos. A minha pobreza, insucesso é devido ao meu
avó/avô, pai vizinho, colega que olha demais, enfeitiçou, fez ou não fez
aquilo.
Damos pouca atenção às
nossas práticas, atitudes, nossas escolhas que provavelmente podem atrapalhar
nossos desejos, aspirações profissionais ou de busca pelas realizações.
Indo no objeto da nossa
escrita é oportuno afirmarmos que Moçambique encontra-se mergulhado em
desavenças políticas que estão a cristalizar a instabilidade política, militar
e social. Perante a esta situação surgem vozes que apontam interesses
estrangeiros como estando na ordem da nossa galopante desgraça social que se
mostra através da exclusão, assassinatos, baleamentos, sequestros contra
pessoas que têm visão e pensam diferente dos membros partidários do partido
governamental em Moçambique.
Aqui não descartamos
essa possibilidade, mas o cenário que nos salta às vistas e, que pode ser equivocado
como não, mostra-nos o apego de alguma
elite política ao poder e vislumbra-se a tentativa de se criar o modelo chinês
onde a economia e a administração política fluem em paralelo no permeio de um
partido forte e único. Aponta uma minoria a controlar tudo e a todos.
Na nossa óptica, este
modelo político pode ser na realidade moçambicana, viável se tomarmos em
consideração o histórico cultural e social dos povos deste território chamado
por Moçambique circunscrito ao gosto dos colonizadores europeus. O histórico
cultural destes povos, segundo a nossa experiência como membros dessas
sociedades é caracterizado pelos modelos administrativos territoriais e
político de reinados, indunas, régulos com poderes absolutos. A cultura hierárquica
onde o mais velho, o chefe, presidente (este em muitos casos significado como
pai) ou qualquer dirigente se sobrepõe às vontades dos mais novos.
Esta prática, quando
liderada, provavelmente, dentro de consensos, negociações onde todos ganham,
poucos contestam o rei ou dirigente, mas em contrário torna-se perigoso quando
esse sistema se apresenta com tendências de nepotismo, corrupção e totalitárias
sem mínimo de respeito pelas liberdades dos indivíduos.
Ora vejamos que o
cenário político actual chegou a uma ponto insuportável de intransigência,
intolerância, exclusão e perseguições de opositores. É uma aventura perigosa um
cidadão significar-se como membro de um partido da oposição na vida social de
Moçambique. Corre-se o risco de ser queimado vivo, morto, preso sob pretexto de
estar perturbar a tranqüilidade pública. Corre o risco de ser excluído, não ser
promovido nas repartições públicas e estatais, etc.
Pela nossa experiência,
a oposição política em Moçambique (Renamo), desde os acordos de Roma que
colocaram fim à guerra civil criou pouco ruído que pudesse hipotecar a sua
governação (da Frelimo) ou a instabilidade do país apesar de por lei possuir armas
destinadas à segurança de sua liderança.
Por outro lado, o
partido no poder, a Frente de libertação de Moçambique (Frelimo), sempre teve a
maioria parlamentar, facto que a priori criou condições de governação sem
grandes empecilhos. A oposição, desde as primeiras eleições multipartidárias esteve
paciente em todo processo político e de governação da Frelimo, mesmo reclamando
das fraudes eleitorais que até o cidadão menos participativo na vida política
acredita ou pensa que sempre houveram.
Os anos se somam e o
sujeito chega a um ponto em que já não agüenta mais. O sentimento de não ser
parte do processo da edificação do país, excepto quando é para pagar os
impostos, o coloca a levantar o tom da voz para repudiar, mesmo sabendo e tendo
consciência de que por seu repúdio cairá sobre ele o chicote/cacetete,
blindado/tanque de guerra, AKM47.
A história da
democracia recente de Moçambique nos mostra que nenhum projecto político social
da oposição parlamentar chegou a ser debatido em profundidade antes de ser
chumbado pela maioria governista. Destaca-se que projectos da oposição
aprovados em 2014 ocorreram em um ambiente da crise político militar. Certamente que isso faz imergir sentimentos
que apontam a exclusão de partidos com assento parlamentar e dos que votaram
naqueles partidos.
Para agravar a
situação, em todas as instituições públicas e estatais, a exclusão de
indivíduos que pensam diferentes ou pertencem a partidos da oposição domina a
ordem do dia. Poucos ou quase ninguém ousa se mostrar no aparelho estatal ou em
público trajado de roupa ou signos que remetem a um partido da oposição. Idéias
vindas dessa pessoa são afastadas humilhantemente.
Perante a este cenário
descrito, pensamos que há necessidade de práticas que promovam a inclusão em
Moçambique. Moçambicanos devem se sentir donos deste país, se sentirem parte do
processo e não cidadãos da segunda ou terceira.
A inclusão, quando se
torna uma palavra com distintos sentidos e conflitantes, onde os que estão do
lado governamental, no lado do poder, bastando proferir a bom som que são
inclusivos e tolerantes já basta e o são, torna o país instável, com muitos
descontentes. Roberto Romano (2016), em um artigo publicado no jornal Zero Hora
(ZH), ao reflectir em torno de escolha entre a moral e a disciplina partidária
e baseando na citação de Merleau-Ponty, alerta referindo que “o membro da
agremiação partidária não se preocupa com a sua moralidade pessoal, mas com a
revolucionária. Importa não criticar o partido, o que fragiliza a organização e
leva à perda de conquistas históricas. Na crise, a militância também estremece,
a liberdade de cada um ameaça mortalmente a dos outros, a violência ressurge”.
Na defesa partidária e
mediante a discursos pré-construídos pela cúpula do poder, a inclusão não
significa exclusivamente integrar pessoas Outras na sua governação, aparelho
diretivo, econômico, pois qualquer acção governamental que reflecte na
sociedade sempre acaba abrangendo todos os moçambicanos e assim, não há motivo
para alaridos.
Por outro lado, a
inclusão significa a partilha do poder político, administrativo e econômico. A
existência de um exército republicano que não cumpre ordens de um determinado
partido político, mas sim o Estado. A existência de aparelho estatal sem
ligações políticas e muito menos onde seus funcionários não sofrem coerção
psicológica nem política. Este cenário caracterizado pelas posições e
ideologias antagônicas coloca Moçambique a uma situação de instabilidade,
assassinatos, baleamentos, sequestros e fuga de capitais.
Outro contexto que não
pode deixar de merecer a nossa atenção reside no facto de se denotar haver rixa
(disputas internas pelo poder) no seio do partido no poder, a Frelimo. Essa
disputa que se visualiza em lutas internas pela busca de uma posição cômoda ou
controle da máquina partidária e econômica e hipoteca o país no todo.
Lembra-se que o
presidente actual de Moçambique e que também é do partido governamental é jovem
e, este não provê diretamente da luta armada de libertação de Moçambique à
semelhança dos seus antecessores. Seus antecessores são os caciques, os
madalas/velhos veteranos da luta armada e que sempre governaram o país desde a
independência nacional em 1975.
Estes, provavelmente
trazem, ainda o ódio pela oposição antes inimiga militar na luta pela
democracia/guerra civil entre 1977 à 1992. Há interesses em jogo pelo controle
absoluto das riquezas do país entre os partidários governamentais e, também,
estes contra a oposição que nunca deixou de ser inimiga mortal.
Destarte, pensamos que
apesar de haver a possibilidade da existência de interesses estrangeiros, não
consideramos oportuna estrangeirizar o conflito político e econômico em
Moçambique. A instabilidade no país imerge e se consolida, a nosso ver, devido à
intolerância, exclusão social, econômica e política.
Assim, devemos ser
capazes e com coragem corrigirmos estas práticas que põem em causa a nossa
dignidade humana, a paz e a estabilidade em Moçambique.
Lourenço E. Cossa

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