COSSA, Lourenço
A língua é um instrumento de
interação e da participação da sociedade em uma nação, o que hipoteticamente
pode projetar a possibilidade do desenvolvimento desta mesma. Esta participação
nem sempre se faz presente em sociedades onde dentro do mesmo espaço territorial
coexiste a diversidade linguística como, por exemplo, na ∕ s sociedade ∕ s moçambicana ∕ s.
Lembra-se que a maioria dos países africanos
colonizados pelos países europeus, depois de conquistarem suas independências
políticas, administrativas apropriaram-se das línguas dos colonizadores, transformando-as
em línguas oficiais e, por vezes, sufocando as suas línguas nacionais conforme
as políticas adotadas que na realidade pertence ∕ pertenciam às culturas ocidentais.
No permeio desta situação é legítimo
indagar-se como é que essa mesma sociedade pode participar de seu meio na
situação em que lhe é despida o instrumento que possa efetivar as trocas de saberes,
neste caso, a sua língua materna.
Se pode verificar Este assunto é de suma
importância, pois a sua abordagem pode provavelmente despertar nos que decidem
em torno das políticas públicas a dar se mais visibilidade às línguas e
culturas nacionais ∕ moçambicanas,
afinal o desenvolvimento de um país não pode ser dissociada das línguas e
culturas de seus povos.
Temos visto o uso das línguas
nacionais nos comícios populares orientados pelos políticos, Presidente da
República nos seus deslocamentos a diversos pontos do país até aos mais
recônditos de Moçambique, distritos e localidades ou municípios e distritos
municipais fora da zona predial da capital. O presidente ou outro membro do
executivo orientam seus comícios usando a língua portuguesa, portanto
estrangeira na visão ou ótica dos populares – a língua de valungo, dos brancos,
ou seja, xilungo. Paralelamente a esta língua oficial adotada como língua que
orienta o discurso público é muito comum e sempre se faz a tradução com um intérprete
transmitindo em língua local que pode ser Xirhonga, Xitsua, Xichangana, Emácua,
Echuabo, Xicena etc.
O Presidente ou a entidade que
orienta o comício popular está para mobilizar, falar de certo assunto ao povo,
às populações e faz isso, pois sabe que aquele povo não o irá entender se falar
em apenas a língua oficial portuguesa, neste caso xilungu-língua do branco.
O dirigente vai despejar saberes ou
informações e muita coisa, sentidos emergem ou poderiam emergir naquela
situação. No entanto, perde-se, pois as línguas não estão próximas. Existe o
fosso entre elas.
Por um lado, a língua oficial de
orientar os discursos públicos e por outro as línguas que medeiam os sentidos
das populações, que trabalha em consonância com os valores, com as culturas, símbolos
e a religiosidade.
Mediante a esta situação como é que
as políticas de desenvolvimento que são concebidas e direcionadas ao povo que
tem línguas próprias que se separam e não interagem com a língua oficial irão
produzir os efeitos desejados na agricultura, no turismo e na produção de bens
variados?
Será que um povo afastado da
interação oficial com uso da sua língua é capaz de participar efetivamente na
democracia ou na construção de seu país?
Ora, estas são questões relevantes e
que merecem ser abordadas continuamente na ∕ s sociedade ∕ s
moçambicana ∕ s, pois
envolvem a vida de uma sociedade, de um povo. Por outro sabemos que discussão em
torno de questão como essa é interminável devido à relações de poder que a
língua envolve, afinal, os detentores da língua portuguesa sentem estar no
centro das atenções, do poder, portanto, na situação de “igualdade” como seus herdeiros
portugueses se sentiam perante ao nativo indígena falante das línguas
vernáculas de Moçambique. Assim, a língua, ao mesmo tempo em que é um
instrumento de troca, de interação, ela é por outro lado instrumento da
diferenciação. Quando falo perante a um outro sujeito que não tem domínio dela,
me sinto em cima e os sentidos que produzo são equidistantes do doutro e
sobretudo, o outro enxerga-me em um lugar inalcançável. Ele, até gostaria de
interagir em um patamar de igualdade comigo, mas se sente impotente, pois lhe
falta este instrumento, língua estrangeira de que eu me apropriei e que orienta
os sentidos públicos em Moçambique. Isso me coloca no patamar de poder ser,
fazer e querer.
Esta posição, logicamente contrasta
com o discurso utilizado para justificar a relevância ou necessidade da
presença exclusiva da língua portuguesa, a estrangeira nos discursos oficiais,
esta tomada como língua oficial e de Unidade Nacional.
A adoção da língua estrangeira
europeia em Moçambique é tida como a solução para se contornar a diversidade
linguística e cultural do país, afinal Moçambique tem aproximadamente dezenove
(19) línguas distribuídas pelas onze (11) províncias, incluindo a capital do
país, Cidade de Maputo que recebe a categoria de uma província. Nisto, depois
da independência nacional em 1975, todas as línguas nacionais e seus falantes
foram bombardeadas com nomes antirrevolucionários diversos, desde tribalismo, regionalismo
etc. Nas escolas e salas de aulas, as crianças sofriam punições diversas se
estas fossem surpreendidas a falarem ou a interagirem através das suas línguas
maternas. As punições variavam desde palmatórias, reguadas (pequena tábua de
madeira em que os professores utilizavam para bater), varas de arbustos,
castigos diversos.
Todo este aparato da repressão física
e mental contra as línguas e culturas moçambicanas se destinava para a
construção de um país unido de Rovuma ao Maputo e do Índico (oceano) ao Zumbo
sem a diversidade, mas sim com uma única língua, cultura, a nação moçambicana.
Entretanto, as línguas e as culturas moçambicanas resistiram.
Mas é indubitável que a língua é um
instrumento de poder e certamente que a elite política negra tenta
incansavelmente colocar ou transmitir este poder na maioria dos moçambicanos
falantes, ainda das línguas nacionais através da oficialidade exclusiva da
língua portuguesa sobre as línguas nacionais.
Contudo, será que o falar da língua
materna pode ser um sinal da divisão da sociedade moçambicana?
O que faz os moçambicanos serem uma
nação não é o fato serem obrigados a falarem ou terem a língua portuguesa como
oficial, mas sim é a partilha de uma mesma história, a colonização, mesmos
heróis, a mesma luta travada para expulsão do colonialismo português, a divisão
do mesmo espaço geográfico.
Lembra-se que atualmente, visualizam-se
discursos que apontam a inconformidade entre os desníveis de desenvolvimento
das regiões de Moçambique, algo que é verídico. Tais discursos são acompanhados
pelos sentidos belicistas entre os moçambicanos naturais do norte do país e os
do sul. Tais sentidos reclamam contra as lideranças do sul desde a
independência e o fato do norte de país
ser a mais “pobre” região no país. Uma coisa é que tanto os que se sentem
vítimas quanto os tidos como detentores de poder, constituem a elite
linguística do poder através da língua estrangeira, portuguesa. As populações
falantes das línguas nacionais estão fora destas discussões, mas em contrapartida
as suas línguas são tidas como as que perigam a unidade do país.
As mesmas populações estão fora do
jogo democrático e a sua contribuição na construção do país se dá por meio do
trabalho árduo por detrás das suas enxadas.
Devido à sua exclusão linguística,
ficam na maioria dos casos fora da informação, fora do discurso visual que
caracteriza a era tecnológica.
No entanto, se as suas línguas fossem
incluídas na oficialidade e na construção do país, certamente que
produzir-se-ia informações que permitiriam o acesso às inovações tecnológicas
de modo a produzirem com eficácia, abundantemente e sobretudo com informações
de como comercializarem seus produtos. Sabe-se que um indivíduo aprende mais
rápido e eficazmente na sua língua materna do que na língua segunda e pior na
língua estrangeira sem conexão possível com o núcleo linguístico da língua a
qual pertence.
Assim, as línguas nacionais poderiam
ser instrumentos de poder e decisão na vida da maioria dos moçambicanos. Esta
não deve ser usada apenas para a difusão de ideologias partidárias, mas sim
para orientar todos os sentidos que possam desenvolver as populações
moçambicanas.
Se a língua oficial se faz sentir nas
populações a partir das traduções de intérpretes e assim dissemina seus
valores, porque o contrário não pode suceder, das línguas nacionais se fazerem
sentir na oficialidade através da interpretação, imprimindo, assim seus valores
e simbologia?