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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A PORTA

TEXO DE MIA COUTO

Era uma vez uma porta que, em Moçambique, abria para Moçambique. Junto da porta havia um porteiro. Chegou um indiano moçambicano e pediu para passar. O porteiro escutou vozes dizendo:

- Não abras! Essa gente tem mania que passa à frente!
E a porta não foi aberta. Chegou um mulato moçambicano, querendo entrar.
De novo, se escutaram protestos:
- Não deixa entrar, esses não são a maioria.
Apareceu um moçambicano branco e o porteiro foi assaltado por protestos:
- Não abre! Esses não são originais!
E a porta não se abriu. Apareceu um negro moçambicano solicitando passagem. E logo surgiram protestos:
- Esse aí é do Sul! Estamos cansados dessas preferências...
E o porteiro negou passagem. Apareceu outro moçambicano de raça negra, reclamando passagem:
- Se você deixar passar esse aí, nós vamos-te acusar de tribalismo!
O porteiro voltou a guardar a chave, negando aceder o pedido.
Foi então que surgiu um estrangeiro, mandando em inglês, com a carteira cheia de dinheiro. Comprou a porta, comprou o porteiro e meteu a chave no bolso.
Depois, nunca mais nenhum moçambicano passou por aquela porta que, em tempos, se abria de Moçambique para Moçambique.
Mia Couto

Este texto, supostamente de Mia Couto foi extraido de uma mensagem postado na página dos Mozucas postado por membro Mozucas – moçambicanos estudantes ou que estudaram na República Federativa do Brasil.
A sua colocação aqui neste blog reflete a filiação discursiva deste para com nosso posicionamento de repulsa contra todas as formas de exclusão entre os moçambicanos no acesso as riquezas do país em favor das multinacionais e estrangeiros.

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