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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

OS NOVOS COLONOS AFRICANOS DO CONTINENTE AFRICANO

                                                “Lutei contra a dominação Branca e lutei contra a 

dominação negra. Eu brindei um ideal de uma

 sociedade democrática e livre na qual todas as

pessoas vivam juntas, em harmonia e em

 iguais qual eu espero viver e alcançar”.

Nelson Mandela

Nos últimos quatro (4) anos, a mídia impressa e televisiva tem nos brindado com discursos que apontam desconforto de certos líderes africanos em relação à circulação de sentidos que questionam a sua governação. O conteúdo destes sentidos desconfortáveis para as elites políticas residem na maneira como as sociedades estão sendo governadas, ou seja, como os governados presenciam e vivenciam a corrupção, a exclusão e as ostentações desmedidas praticadas por seus governantes e, sobretudo pelo descaso para com as políticas públicas.

Por vezes, a impressão que salta aos olhos das sociedades é de que as elites políticas que na realidade fazem parte também das elites econômicas, antes heróis nacionais dos países africanos se transformaram em elites brancas sob a “máscara negra”¹, “o artifício do homem branco inscrito no corpo do homem negro”², ou seja, elites que são o reflexo da “visibilidade da mumificação cultural na ambição declarada do colonizador de civilizar ou modernizar o nativo, que resulta em ‘instituições arcaicas inertes [que funcionam] sob a supervisão do opressor como uma caricatura de instituições férteis’”³.

As práticas antes protagonizadas pelos colonialistas ocidentais, a humilhação, o desalojamento dos nativos em suas terras férteis, a tortura, o trabalho forçado e as cobranças de impostos sem retorno sobre suas vidas, portanto, coisas que foram motivos de repúdio ao ponto de se pegar em armas e lutar-se para expulsá-los estão tendo destaque no momento atual, pós-independência. Esta situação coloca certos segmentos da sociedade a questionarem das reais intenções dos heróis nacionais no que foi a mobilização do povo contra o colonialismo ocidental.

A coisa que o colono europeu branco não conseguiu fazer em 500 ou a 100 anos da colonização no continente africano, os heróis (colonos africanos pretos), pessoas assimiladas escolarizadas e munidas pelas ferramentas psicológicas e valores do colonizador europeu, sujeitos que se transformaram na elite política depois das independências conseguiram em menos de 20 a 40 anos. Mais do que nunca, o combate aos valores dos povos africanos, as línguas, a medicina, a religiosidade, a estrutura econômica e política foi ou está sendo avassalado.

A questão que se pode colocar é como estes indivíduos conseguiram provocar estes deslocamentos em pouco tempo das independências de seus países?

Como é que o colonizador europeu não conseguiu efetivar seus anseios da civilização e eliminação das culturas, línguas e valores africanos em aproximadamente 80 a 100 anos da colonização administrativa?

A resposta ou uma das respostas para esta questão é a seguinte:

- Durante os anos da colonização, exploração e humilhação dos povos africanos pelos colonizadores ocidentais, a cultura, as línguas africanas serviam como instrumentos de resistência contra a ocupação colonial. Todas as populações africanas falavam suas línguas nativas, desenvolviam seus códigos, símbolos e produziam instrumentos eficazes para se contrapor às ideologias colonizadoras. Terminada a colonização europeia dos brancos surgiram novos colonialistas, arrogantes e ditadores. Os novos exploradores africanos da pele negra.

Os sucessores dos colonizadores e exploradores europeus introduziram instrumentos ideológicos pró-eurocêntricos, que propiciassem a eliminação das simbologias, das culturas, línguas africanas nativas. Conseguiram catalisar este processo porque são negros e aos olhos de “seus povos”, dos povos africanos estes indivíduos eramsão libertadores, seus heróis.

Esta situação os colocou na posição privilegiada e tiveram a oportunidade de promoverem políticas que lhes constituíam, afinal a formação deles se deu dentro do processo da colonização onde o pensamento iluminista é relevante. No permeio da crença do herói, por terem unidos seus povos contra a ocupação colonial europeia e, sobretudo por pensarem que a expulsão dos brancos abria a oportunidade de guiarem suas vidas, determinarem seus destinos, construírem seus países de acordo com suas ansiedades, os povos africanos se desarmaram. Relacionaram a questão da exploração com a questão da pele, da raça, portanto, coisa do colonizador.

Contudo, as políticas iniciais depois das independências se concentraram na eliminação de todos os instrumentos que proporcionavam a união e colocavam os povos africanos unidos e fortes para se opor contra a colonização, as línguas e as culturas africanas.

Conquistadas as independências “esqueceu-se” que estes instrumentos culturais são os que exatamente os fortaleciam e os faziam enriquecer dentro da diversidade.

Os povos africanos, de certa forma consentiram serem submetidos às políticas do apagamento de suas identidades, suas culturas em nome da coesão social, já que dentro dos territórios havia a diversidade de línguas e culturas. As teorias coloniais da homogeneidade e do perigo da diversidade que fizerem lá no continente europeu se exterminarem muitos povos e nações em nome da necessidade da existência de uma nação, de um só nome, uma cultura, uma só religião, somente uma língua estavam se instalando e efetivando entre os africanos, justamente pelos negros. As ansiedades dos colonos brancos estavam se concretizando, só que desta vez protagonizados pelos negros, os mesmos que lutavam contras estas práticas nefastas.

As ansiedades coloniais não se restringiam apenas nas simbologias africanas, mas aos diferentes objetos de valor como os recursos naturais, exatamente como os colonos e exploradores europeus ansiavam.

Ao se darem conta, os povos viramveem suas terras usurpadas e devolvidas aos anteriores usurpadores, os colonos brancos, tudo isso feito em nome do desenvolvimento.

Na concepção das políticas do desenvolvimento as teorias da atração dos investimentos estrangeiros na agricultura, na mineração entre outros, promovem o êxodo das multinacionais, singulares ocidentais e asiáticos ao continente africano e internamente pouco se promovem na potencialização dos nacionais nativos em ferramentas que os possibilitem explorarem seus recursos e saírem da pobreza a qual estão sendo submetidos pelas atuais elites políticas negras.

Sabe-se que a construção de um país leva tempo e é um desafio, mas há que se considerar que país como Moçambique não é um território de emigrantes como aconteceu nos países americanos e da Oceania. Moçambique é um país constituído pela diversidade étnica linguística determinada, como suas estruturas familiares e de valores bem localizadas. Na sua história, a questão de dominação ou governança sempre existiu. Contudo, apesar de possuir esta história de subjugação jurídica e administrativa de impérios, a questão de diversidade de línguas, de valores foi sempre respeitada.

É a partir das tentativas de marginalização e eliminação das formas de viver, das línguas, dos valores milenares, e da entrada forçada de novos valores de outros povos não africanos que alguns setores sociais questionam a teoria da independência sobre o colonialismo europeu. Os fatos contextualizados apontam que ainda não se alcançaram as independências totais e completas como se supõe se haja. Ao se expulsar os colonialistas ocidentais europeus, apenas se substituíram estes pelos colonialistas pretos mascarados, seus discípulos. Cumpria-se “a fantasia do nativo de ocupar o lugar do senhor”4.

Nas fases derradeiras, próximo às independências, o colonialismo havia formado seus sucessores, pretos munidos pelo aparato teórico e comportamental da exclusão, arrogância e ditadura. Na verdade, os heróis escolarizados pelo colono, ao mobilizarem as populações africanas, maioritariamente sem a escolarização eurocêntrica colocou na sua mente a esperança da liberdade de se sentirem africanos de acordo com as suas diversidades e tomarem as rédeas de seu desenvolvimento.

Eduardo Mondlane, o primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), assassinado durante a luta armada de libertação destacou em seu discurso que “os elementos positivos da nossa vida cultural, ‘tais como as nossas formas de expressão linguística’, as nossas músicas e danças típicas, as peculiaridades regionais de nascer, crescer, amar e morrer continuarão depois da independência para florir e embelezar a vida da nossa Nação. ‘Não há antagonismo entre as realidades da existência de vários grupos étnicos e a Unidade Nacional’” (MONDLANE, 1967 p.79).

Contudo, o que sucedeu depois da expulsão dos colonos brancos foi a substituição pelos colonos pretos e estes apropriaram-se da máquina repressiva, perpetuando as mesmas humilhações que antes sofriam contra os colonos europeus, só que desta vez protagonizados pelos seus próximos em termos da cor da pele. O fato de obterem saberes diferenciados europeus e o poder de interditar a circulação das línguas africanas nativas, antes seus, coloca-os diferentes dos demais, configuram a personalidade europeia, ou seja, brancos negros – valungo-va-ntima.

Para não se sentirem ameaçados pelos seus próximos da pele recorrem aos seus instrutores colonizadores brancos, “patrões” no dizer de Samora Machel e, trazem de volta para o continente africano, empresas multinacionais, “organizações não governamentais” (não todas) para desalojarem as populações, humilharem e matar, os mesmos pretos cujo eles fazem parte, visivelmente. As empresas multinacionais e alguns governos ocidentais são a retaguarda de muitos líderes e governos africanos ditadores. Enquanto estes servirem os interesses ocidentais, estes governos estão acima de qualquer suspeita. São governos do povo, democráticos. Esta posição apenas muda quando tais governos tentam ser autônomos e querem definir suas políticas. A partir deste momento passam a envergar a camisa de ditador, tirano.

Internamente, estes governos investem pouco na intelectualidade e populações locais e fazem lobbies com as organizações e entidades estrangeiras para fraudar as eleições internas ou para obterem auxílios financeiros e tecnológicos que os deem suporte para conterem as insatisfações populares muita das vezes generalizadas em seus países.

Exemplos dessas são inúmeras. Podemos recorrer no artigo que lançamos recentemente “O NEOCOLONIALISMO DO BRASIL SOBRE MOÇAMBIQUE” (2012), onde temos as empresas como a Mozal, uma empresa que produz alumínio destinado às empresas como Boeing, altamente poluente e instalado na cidade, no meio das povoações, ou seja, em um raio de 100 quilómetros desta multinacional que emitem substâncias tóxicas (fato sempre refutado por esta empresa e pelo governo apenas) existem aproximadamente mais de um milhão de habitantes. Se esta empresa depara com algum problema no seu processo produtivo opera em sistema sem filtro, o chamado by-pass e sem fiscalização independente.

Dentre outras empresas de extração predatória de corte de madeira nacional em bruto para o mercado asiático e que em alguns casos operam na ilegalidade, temos a empresa mineradora brasileira, a Vale. Esta empresa extrativa já arrancou a população nativa das suas terras e de seus ancestrais os colocando em lugares sem condições adequadas e humilha-os a seu bel prazer quando estes reclamam. Quando as populações reclamam, o governo, em detrimento de procurar satisfaze-los manda seu aparato policial repressor para esmaga-los sem piedade.

Por outro lado assinam protocolos com fazendeiros brasileiros, japoneses e sul-africanos brancos na sua maioria para usurpar as terras dos nacionais. A construção de reserva dos animais para o turismo têm outros desdobramentos repletos de atos colonizadores. Desalojam-se as populações de suas terras, portanto circunvizinhas dos projetos de parques naturais e também os que vivem dentro das áreas abrangidas por tais investimentos das reservas para os animais, mas sem a inclusão destes nos benefícios futuros advindos de tais investimentos. Proíbe-se e penaliza-se qualquer membro da população no entorno das reservas que matar qualquer animal para sua refeição ou quem matar um animal que se invadiu destes locais e posteriormente dilacerou sua machamba.

Parque e os animais devem ser defendidos contra ações da caça furtiva. Até ai entende-se, mas contraditoriamente assiste-se a vinda dos antes colonizadores europeus, pessoas singulares, elites, ricos, personalidades públicas e anónimos europeus para realizarem a chamada caça desportiva! Enquanto um membro da população local cujo aquele território lhe pertence de fato e, é de seus ancestrais é proibido, penalizado e morto se for encontrado a praticar a caça para sua refeição deixa-se, permite o colono a matar os animais para simplesmente praticar a caça desportiva.

Que governos temos no continente africano? De africanos para africanos ou de africanos para os europeus?

É urgente a adoção em países africanos de políticas que protejam os africanos, promovendo o bem estar e, sobretudo políticas públicas que deem visibilidade às línguas vernáculas, às culturas, pois nenhuma educação e desenvolvimento de um povo se concretizam de fato sem se dar destaque as simbologias características, as formas de significar a vida e o meio deste mesmo povo. Isso não quer dizer o isolamento, mas a contextualização, se acontecer a interpelação com o outro.  

¹(FENON, 1986).

² e 4(BHABHA, 2005 p.76).

³(RUSHDIE, 1988 apud BHABHA, 2005 p. 75).

COSSA, L.

3 comentários:

  1. O texto reflete uma percepção do quotidiano urbano vivenciado pelos povos africanos nos dias de hoje.. Pretendo voltar pra fazer um comentário mais aprofundado.
    Parabéns pela colocação.

    Saudações.

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  2. De fato. Seu comentário é de grande valor, pois pode/rá proporcionar mais significados ao assunto do texto. Aguardamos.

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  3. Das postagens para a reflexão contínua que propôs aqui, com certeza esta é a que mostra uma realidade nua e crua das sociedades subjugadas sob qualquer tipo de regime. E no nosso caso (Africano), se mostra mais visível porque se acredita que ainda não somos independentes totalmente. É Preocupante essa situação, pois tenho minhas duvidas se isso um dia vai mudar. Mesmo com a existência da chamada "Massa critica" urbana das cidades Africanas. Esses a exemplo de outra massa noutras latitudes, acabam por perder a sua essência pois são cooptados pelo sistema. O engraçado é que isso ocorre de uma forma natural pela situação da realidade em que a pessoa se encontra. Para ser mais nítido e como exemplo, falo da juventude recém formada para os desafios do País e do Mundo. Imbuído de ideias de desenvolvimento, reforma, criatividade e critico feroz do destino do País, a nova geração de Doutores e afins, se mostra com muita vontade mudar as coisas nos quais acredita que não estão a ser bem feitas. Nem vou me alongar muito na descrição do que viria a acontecer, pois o fim desses jovens, a nova geração, nós todos sabemos.

    Parabéns mais uma vez pelo Texto
    José F. Junior

    PS: Envio aqui mais uma vez, porque não consegui enviar o comentário no Blog.
    Abraço.

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