COSSA, Lourenço
Pastor
político brasileiro da Igreja Assembleia de Deus, o Feliciano, recentemente
nomeado para liderar a comissão dos direitos humanos afirma com base na
interpretação da bíblia que os africanos são amaldiçoados e que para
a sua cura devem se filiar ao cristianismo.
Em
defesa protocolada no STF (Supremo Tribunal Federal), o deputado Marco
Feliciano (PSC-SP) o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) reafirmou que paira
sobre os africanos uma maldição divina.
Perante
o repúdio da sociedade brasileira pró-direitos humanos e a pressão para que
este deputado pastor/político saia da presidência da Comissão dos Direitos
Humanos, surge evangélicos a apoia-lo e defendendo-o.
Uma
dessas personagens é o pastor, também da Assembleia de Deus, o Silas Malafaia. Em seu programa de tv,
este pastor refere:
- Por outra, querer dizer, por uma frase, [que
proferiu] que alguém é racista e
homofóbico, isso é piada... Isso é piada e de mau gosto. Eu não concordo com a
ideia dele; é uma discussão teológica isso. Eu não concordo com essa vertente
de onde vieram os negros, mas é uma vertente teológica, não tem nada de
racismo. É uma discussão teológica que eu não concordo. Feliciano, não pode ser
julgado por tais acusações. Ele nunca bateu ou matou um gay, e sua origem é
negra.
O discurso do Pastor da Igreja de Assembleia de Deus perambula
entre os valores que uma frase pode carregar ou não carregar. Contudo, o valor
mínimo deste discurso reside na negação de que uma frase pode carregar consigo
valores e, ser susceptível de provocar deslocamentos.
Malafaia nega o poder da frase e, certamente nega o força do
verbo, o mesmo verbo que ele utiliza nas suas ações evangelizadora.
Ora, a história da humanidade é recheada pelos fatos em que o uso
da frase criou mudanças e deslocamentos. De fato, a palavra, de forma isolada
pode não conseguir atingir a tamanha proeza, mas inserida em um contexto, seu
poder transformador ideológico é grandiosa.
É exatamente esse transformação ideológica que perpetua práticas,
boas ou/e nefastas
O Malafaia, diz não concordar com
essa vertente de onde vieram os negros, mas é uma vertente teológica. Não tem nada de racismo.
Que é uma vertente teológica todo mundo sabe. Mas se sabe também
que essa vertente foi desenvolvida por um grupo de cristãos racistas americanos
para justificar suas práticas excludentes. A Bíblia não refere em nenhum
versículo que o Noé tinha a mulher africana. Ademais, naquela época histórica
não havia muita integração entre povos distantes. Além do mais não existe
nenhum dado histórico-científico-antropológico que aponta que os africanos
foram geridos por brancos.
Por outro lado, as escrituras da arca não constituem a verdade
absoluta. Elas pertencem a um contexto de crença localizada. Médio Oriente.
Retornando na discussão, como referimos, a discussão teológica
proferida e defendida por aquele deputado/político evangélico da Assembleia de
Deus e PSC tem a sua gênese nos Estados Unidos da América e era usada pelos
pastores racistas daquele país nos séculos áureos do racismo. A emergência e a
perpetuação desta vertente teológica em um país como Brasil onde o racismo
ainda é prática política e social cria/perpetua de certa forma estereótipos,
atitudes racistas.
Ademais, aquele pastor evangélico que apesar de ter a ascendência/origem
não implica que suas palavras não podem fomentar ou cristalizar discursos e
práticas racistas.
Cotidianamente, muitas políticas antirracistas são desenhadas e
colocadas em hasta pública da justiça, mas ninguém no Brasil já foi alguma vez
preso por ter praticado o racismo. Contudo, essas práticas estão vivas e
sucedem a cada dia e a cada momento. As estatísticas são elucidativas, quanto a
esse respeito, muita matança da população negra no Brasil, a polícia mata
indiscriminadamente os negros. As repartições empregatícias excluem os negros,
nas novelas, o negros aparece na maioria dos casos como porteiro ou empregado
doméstico, etc. etc.
Se esta vertente surgiu com pastores racistas, como é que a mesma,
se proferida por um Feliciano não será racista?
A pressão que se observa contra este pastor cuja seu discurso
cristaliza práticas racistas não advém pelo fato de esse ser evangélico ou por
manipulação dos petistas, mas sim pelo fato deste pastor/político não ser
ponderado em seus discursos inflamatórios contra quem estiver em seu caminho de
pensamento equivocado teológico.
Tem muitos evangélicos no Brasil e, estes pregam sua mensagem
divina e nunca entraram em desavenças. Mas discursos que perpetuam a exclusão
dos negros em um país onde o racismo ainda é prática cotidiana isso é
intolerável.
Este pastor/político agride as pessoas. As suas convicções atentam
contra a crença e estar de outras pessoas e, como uma pessoa dessa pode
presidir uma Comissão dos Direitos Humanos?
Só em sociedades cínicas, um sujeito desse preside e tem espaço. O
pior é que vi pela TV, negros evangélicos a defenderem aquele pastor/político
racista, lá na Câmara dos Deputados.
É fato, a crença mexe com as estruturas complexas da psique humana.
Uma pessoa que crê, com pensamento religioso, pratica sua fé sem crítica, pois
um pensamento crítico é silenciado pelo sentimento de culpa, afinal o crente
não quer se flagrar dentro do “pensamento diabólico”. É por esse motivo que se
observa moldura humana a desembolsar rios de dinheiro para um indivíduo que o
considera representante de Deus/Jesus Cristo.
Imagine se de fato o Jesus Cristo aparecesse em um templo/igreja,
dessas que recolhem dinheiro para se reservar um espaço no céu e se dirigisse
ao altar, ele com suas vestes/túnicas e proferisse: - Sigam-me, pois sou o
caminho e a verdade? Eu acho que sairia desse templo/igreja à paulada, pois
seria difícil o pastor renunciar as mordomias providenciadas pelos crentes.