No
campo da crença, os sujeitos invadem, humilham, matam as identidades de outros
sem, no entanto, observarem que tais atos são transgressores. Este estar sucede
dentro da fé, da crença, crença essa comumente tipificada como fundamentalismo,
ou seja, uma crença que extrapola a razão de ser compartilhada, interativa
equilibrada dos indivíduos.
O
fundamentalismo consiste em comportamento crente idiossincrásica que coloca os
sentidos como únicos, verdades absolutas e inquestionáveis. O fundamentalismo
não reflete sobre seu acto, pelo contrário, ovaciona-se pelo que reproduz, pois
acredita que é o caminho a ser seguido. Assim, determinados povos matam,
sequestram, estupram, colonizam, exterminam outros, excluem e apagam as
identidades de outros grupos étnicos.
Na
história da humanidade o cristianismo mudava os nomes dos povos não cristãos
através da coerção física e psicológica. Esta coerção desembocou em mortes de
seres humanos na fogueira. Muitos povos foram mortos em nome da crença durante
a inquisição. Neste tempo histórico do cristianismo ocidental, as crenças não
ocidentais cristãs, as ideias e saberes usualmente não partilhadas pela Igreja
Romana Cristã eram significadas como más, diabólicas e assim sujeitas às
sanções severas. Em muitos casos seus possuidores eram queimados vivos.
Em
nome da pacificação, civilização povos foras exterminados e outros perderam
suas culturas e identidades. A civilização, o cristianismo e o islamismo tiram
a referência das pessoas, muda seus nomes e raízes para abraçar valores
contrários a sua identidade, raça e etnia.
A
questão da existência de nomes que se relacionavam com a maneira de vida,
crença e, isto, acrescido pelo facto de serem não ocidentais-latino-cristã, catalisou
a sua significação destas como diabólicas, não civilizadas e daí a perseguição
de seus possuidores ou a sua eliminação.
Século
XXI, 2012, a mudança de nomes, sobrenomes, a perda de identidade dos povos
ainda se faz presente nos povos não cristãos ou não islâmicos e, sobretudo nos
não ocidentais europeus cristãs.
A
eliminação é feita pelas igrejas evangélicas cristãs, pelas leis etnocêntricas
de determinados países e governos e, pela globalização econômica, política e
cultural sob a máscara da civilização.
Muitos
povos viram suas identidades mudadas pelo ato civilizador e homogeneidade
política-administrativa de seus países. Africanos, americanos nativos, europeus
inicialmente não cristãos.
A
título ilustrativo podemos citar sobrenomes referentes aos objetos, arvores,
conceitos de vida, crenças etc. Sobrenomes como Ferro, Carvalho, Madeira, Pereira,
Oliveira, Senhor, jesus, Segredo, etc, fazem parte dos nomes ou sobrenomes de
linhagens ou povos que primeiramente possuíam uma identidade própria não cristã
romana.
No
caso do continente africano, esta prática de mudança e eliminação de nomes
africanos e seus sobrenomes teve seu apogeu durante a colonização europeia nos
séculos XIX, XX e atualmente no século XXI. No vídeo intitulado Mandela, Pai de
África e Filho de Uma Nação, o ex-presidente da República da África do Sul,
Madiba Kholihlahla Mandela, revela que o seu nome sobejamente conhecido surgiu
quando sua mãe o levou até a administração colonial, quando era adolescente.
Chegado lá para registrá-lo, o oficial, colono pergunta a mãe, como é que se
chama o menino?
Sua
mãe responde prontamente, Madiba. O Oficial da administração, retorque, não! A
partir de hoje, ele se chamará Nelson. Assim, nasceu o nome mundialmente
conhecido, Nelson Mandela. Entretanto, como este nome era difícil de ser
proferido e pronunciado pela família, os seus pais, o chamavam Nelisile,
pronúncia ajustada à sua língua materna Txoza.
Recentemente,
no mês de fevereiro, aqui no Brasil, uma emissora televisiva colocou no ar uma
matéria de reportagem que apontava igrejas cristãs evangélicas, invadindo as
reservas indígenas para converter∕catequizar
os povos indígenas residentes naquelas áreas demarcadas pela Fundação Nacional
do Índio (Funai).
Esta
conversão dos índios para vida cristã é acompanhada pelo apagamento de suas
identidades, valores, culturas. É pertinente realçarmos que não se coloca em
questão as ações que visam ajudar nos necessitados através da palavra de conforto
emocional, rezas de alívio da dor ou cura no ser humano.
Retornando,
há que referir que os sentidos que escapam nestas cruzadas evangélicas cristãs
apontam que os valores do cristianismo de trezentos ou quatrocentos anos atrás
permanecem os mesmos, ou seja, a obrigatoriedade de submissão dos indivíduos à
cultura ocidental cristã, promovendo comportamentos e atitudes de negação das
identidades culturais e de estar social de outros povos. O indivíduo deve se negar,
negar seu nome, seu sobrenome, seus valores, para ser aceite como puro,
santificado, ou seja, apagar seu eu para atingir o estágio de ser cristão.
Governos
e organizações, ainda apegam-se nestes valores crentes cristãs incorporadas nas
suas leis constitucionais para promoverem o apagamento das identidades e
referência de outros povos. A Funai é uma destas organizações. Apesar de
auxiliar os índios a usufruir de seus direto à terra, por muito tempo
registrava estes povos com nomes ocidentais.
Entretanto,
sabe-se que outras correntes cristãs, provavelmente moderadas entendem que o
cristianismo resume se na conscientização do ser humano a se abster das
práticas que não respeite o outro, nas práticas que interferem negativamente na
vida social.
Entretanto,
práticas ortodoxas cristãs como coerção psicológica para mudança das
identidades dos não cristãos e, sobretudo, os nãos ocidentais são, até hoje,
século XXI, praticadas em nome da salvação.
Sábado,
dia vinte e quatro de março de 2012, o programa Ação e Cidadania exibido pela
rede Globo mostrou o desenvolvimento sustentável de comunidades rurais formadas
pelos nativos brasileiros, os índios. A
reportagem destacou a preservação das matas, o turismo comunitário com seus
lodges e rádio.
Entretanto,
algo despertou a nossa reflexão. Quase todos os nomes e sobrenomes dos
entrevistados na grelha televisiva eram caracterizados pela grafia e
significado ocidental. Nomes e sobrenomes como Cavalcante, Silva, Lopes,
António Francisco, Souza, entre outros, caracterizavam a identificação daquele
grupo étnico indígena. Não está em questão o desenvolvimento destes povos, o
vestir, a obtenção de tecnologias, a construção de casas convencionais, pois
usufruir estes objetos não apaga a identidade de um povo, mas o apagamento de
nome e, sobretudo, sobrenome∕apelido altera a identidade
de um sujeito, alteram as referências de um indivíduo.
Há que ressaltar que
atualmente, no Brasil vivem 817 mil índios, ou seja, cerca de 0,4% da população
brasileira, segundo o senso de 2010, um número que revela o resultado do
extermínio destes povos desde a invasão europeias até aos momentos atuais.
Assim, a implementação de políticas públicas que respeite suas identidades,
culturas e valores, e, auxiliem o desenvolvimento e sua autonomia é um direito
fundamental. 
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