Recebi e-mail que avisava
acerca da possibilidade da realização de uma greve que objetiva reclamar ou
repudiar acerca do alto custo de vida em Moçambique. Lembra-se que greves de
gênero já aconteceram no país e foram exatamente orientadas e realizadas com base
nas mobilizações via circulação dos sms∕torpedos
e e-mails. Pessoas sem rostos, cansados com as carências e aumento de preços
dos bens necessários para suas vidas enviam sms e constituem uma rede complexa,
desencadeando um levante popular para reclamar o custo de vida nas cidades de
Maputo, a capital do país e Matola com replicas na província de Gaza.
Manifestações
populares desta natureza aconteceram no dia 5 de fevereiro de 2008 e nos dias
3, 4 de setembro de 2010.
Estas
manifestações são caracterizadas pelas depredações das infraestruturas privadas
na maioria das vezes e também publica em menor escala. Lojas são saqueadas,
queimadas, carros são depredados e queimados, pelas estradas são queimados os
pneus, colocadas barricadas, a população mune-se de paus e pedras, fósforos e
isqueiros, a polícia dispara indiscriminadamente contra a população usando
balas letais e nisso, são mortas as crianças e jovens, portanto, as cidades se
transformam em campos de batalhas: de um lado as populações e de outro as
forças policiais armadas até aos dentes.
A
questão é, por que as greves são caracterizadas pelas manifestações
depredatórias e sem lideranças?
Lembra-se
que constitucionalmente todos os cidadãos em Moçambique têm direito a fazer
greve ou de se manifestar pacificamente, desde o momento que solicitem
formalmente a sua realização na entidade constitucionalmente responsável.
Contudo,
há que realçar que o governo moçambicano controla tudo e todos. O sector
público não tem direito de se manifestar publicamente ou de fazer a greve. Os
Sindicatos das empresas públicas e privadas não são entidades livres do poder
político governamental. Estes são controlados e ligados ao governo e para
piorar, a preocupação de seus elementos é a ascensão ao poder governamental,
fazendo parte do mesmo sistema político, o mesmo cuja população, os
trabalhadores reclamam de privá-los das condições básicas para sua
sobrevivência.
Já
houveram greves legais, autorizadas, mas impedidas de se fazerem às ruas. Já
houve prisões nas greves pacíficas, aquelas cujos cidadãos circulam pelas ruas
e avenidas pronunciando palavras de ordem e empunhando cartazes e dísticos,
reclamando seus direitos. Nos anos anteriores, os professores fizeram greve e
foram barbaramente reprimidos e tiveram a lição de nunca mais fazerem coisa
igual. A greve dos magermanes, moçambicanos que trabalharam na extinta
República Democrática Alemã (RDA) e que suas economias e fundos de pensões
pagas pelo governo alemão ao governo moçambicano para encaminhar aos
respectivos donos nunca foram depositados aos beneficiários, já custou à vida
ou a integridade física de alguns destes compatriotas. Outras greves reprimidas
violentamente são dos desmobilizados e de outras entidades dos trabalhadores.
São muitas pessoas que foram mortas ou presas arbitrariamente por reclamar seus
direitos em Moçambique.
É
nesta ordem das coisas ou situação que o pacato cidadão, não enxergando a luz
verde no fundo de túnel ou se vendo desprotegido pelo sistema e privado seu direito
as condições básicas como alimentos, transporte e a greve opta pelo vandalismo,
portanto, algo não benéfico para ele e para o país, pois destrói tudo, bens dos
cidadãos comuns e infraestruturas públicas. Para piorar é que este tipo de
manifestação pública coloca retrocesso na vida de pessoas comuns, civis que
nada tem a ver com o custo de vida. Estraga o carro de um civil, saqueia loja
de uma pessoa que também está a lutar para sobreviver e, nisso, nenhum elemento
do poder é diretamente atingido pelas arruaças do vandalismo.
Isto
pode ser o desespero de moçambicanos que não veem alternativa viável para
reclamar seus direitos básicos de sobrevivência. Eles enxergam aquele ato ser o
mais apropriado para obrigar o governo a se mexer, a fazer qualquer coisa em
favor deles.
Há
necessidade de se criar uma nova consciência politica e social nos cidadão em
Moçambique. O moçambicano deve saber que os problemas do custo de vida que o
afeta não provem das ações de um Chapeiro (dono ou condutor de mini-autocarro de
transporte de passageiro) e muito menos dos legistas do Xikheleni, Mahlazine,
Komponi, Chamaculo, mas sim, das ações políticas governamentais que o coloca
fora do sistema, da participação efetiva no desenvolvimento de seu país, ou
seja, de ações políticas-econômicas que o empurra cada vez mais para a pobreza.
Os dados recentes apontam que cada vez mais, agudiza-se o fosso entre os ricos
e pobres e pior! Está aumentar o número dos pobres em Moçambique. Os índices
numéricos de desenvolvimento econômico do país são altos e chegam a oscilar nos
5 a 7 dígitos anuais. Contudo,
estes valores numéricos de desenvolvimento econômico não se refletem na vida da
maioria dos moçambicanos.
Há
dois meses, a antiga primeira ministra das finanças na governação do ex-presidente
Joaquim Chissano, Luísa Diogo concedeu uma entrevista em um jornal da praça,
apontando a pobreza acentuada e a exclusão de muitos moçambicanos. Esta figura
política de Moçambique vincou que a incidência desta situação poderia provocar
a instabilidade no país.
Pois
é, uma população que se sente ameada constantemente, com direitos limitados e
existentes só no papel e nos discursos, mas não na prática é capaz de tudo.
Vandalismo, a criminalidade, a anarquia são os sinais inequívocos de esse
estar.
Urge
se potencializar uma sociedade civil livre das garras e ansiedade de
pertencimento ao sistema político vigente, uma sociedade civil não alienada e
pouco manipulada, com voz na definição dos destinos do país. Só assim é que a
população poderá usufruir de seus direitos consagrados na constituição,
condições básicas para sua vida, lucidez nas suas lutas, conquistas e não ao
vandalismo.
A educação para a
cidadania (cidadãos críticos, participativos, inventivos, reflexivos e,
sobretudo criativos) é uma das chaves para a paz e harmonia social.

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