COSSA, L.
Costuma-se dizer que cada povo merece seus presidentes ou lideranças.
Ora, esta afirmação pode
suscitar repulsa ou filiação, pois os sentidos que carregam não constituem a
linearidade ou unanimidade. Isto tem razão de ser, uma vez que dos sentidos que
este excerto porta, existem diversos valores, práticas, culturas e, sobretudo,
sistemas de poder e manipulação cujo nem sempre os desejos, vontades das
populações ou das sociedades sobressaem. Em muitos casos as vontades e desejos
das sociedades podem ser submetidos à manipulação ou sistemas ideológicos
pré-formatados com determinados objetivos que fogem de controle das mesmas
sociedades.
Mas porque falar deste assunto
pouco confuso?
A resposta é que li,
recentemente, em um jornal eletrônico de Moçambique um comentário em que um
internauta destaca: “temos o governo que merecemos”, ou seja, governo é reflexo
da sociedade moçambicana.
Este enunciado pôs-me a refletir
na tentativa de encontrar aproximações no que é ou pode ser o meu
posicionamento face aos contextos as quais eu pertenço. Estes contextos são
caracterizados pelas carências excessivas, falta de saneamento básico,
transporte público decente e em quantidade, segurança, atendimento hospitalar
condigna na qual o cidadão ao se deslocar ao hospital tem a máxima certeza que
tudo irá correr bem, a ausência de facilidades nas tramitações de processos de
extrema vitalidade para a vida de um citadino e que não obrigue a pagar
refresco ∕ suborno nas instituições públicas e, sobretudo o respeito pelo próximo
nas interações sociais.
Bom! Será que este enunciado
revela a realidade das sociedades no mundo?
Não é fácil aceitarmos estes
dizeres como parte de nós, pois são poucas pessoas que aceitam reconhecer a
cumplicidade em práticas vergonhosas. Muitos de nós adoramos ser ovacionados,
mesmo que nossas atitudes e comportamentos estejam deslocados dos valores consensualmente
bonificados pelas sociedades.
Assim, a primeira atitude é questionarmos como é
que um governo pode ser reflexo de seu povo?
Se é, quererá se dizer que
quando um governo governa com responsabilidade e um olhar para seu povo,
implica, isso que seu povo é responsável e atencioso para com as questões
sociais?
Se um governo é corrupto e com
descaso para com seus povos, quererá, com isto referir que as sociedades onde
este governo esteja inserido, caminha fora da ética, moral ou que seus
“cidadãos” estão descabidos de noções básicas do respeito aos seus pares?
Como se nota, é um assunto
bastante controverso e a nossa posição tentará trilhar pelo caminho do que
considera de interesse comum, segundo a nossa constituição, como sujeito com
várias identificações.
De fato faz sentido os sentidos
que apontam o governo como reflexo de povo, pois os elementos que fazem parte
do governo saem do mesmo povo. Os elementos do governo pertencem aos mesmos
valores, cultura.
Faz sentido, dado que se não
fosse, certamente que as mesmas sociedades iriam-se posicionar com vigor contra
práticas que consideram deslocadas de seus valores. Poderia, por exemplo, se
opor contra todas as formas de exclusão política, econômica e regional se de
fato, estas práticas fossem contrárias a sua identificação. De acordo com
minhas interações como membro de uma determinada sociedade, por vezes constato
que são poucas pessoas que se manifestam contrários a interesses alheios de
alguns governantes de nosso Moçambique. É frequente ouvir discursos de
conselhos como – come, come e come. A vida é assim mesmo, sobrevivem os mais
fortes. Isso é a cadeia normal de uma sociedade.
Se em uma sociedade reinar o
roubo e a corrupção generalizada praticada em todos os sectores da sociedade
civil e por políticos, estamos em presença da identificação governo e seu povo.
Por exemplo, em Moçambique,
passa-se a impressão que aponta que a maioria das pessoas toleram ações nefastas
e desfavoráveis aos interesses comuns das sociedades moçambicanas. Com isto
podemos aceitar que de fato merecemos os nossos governantes.
Se é que merecemos, podemos
aceitar confortavelmente que estamos condenados ao sofrimento eterno, pois
merecemos ser governados deste jeito. Consentimos a falta das carências
enquanto assistimos o desbanjamento dos bens públicos, afinal mesmo se eu ∕ nós estivéssemos lá fariamos o
mesmo. Deste modo não há razão de nos queixarmos ou reclamar, reinvendicar
qualquer melhorias nos itens acima apontandos que constituem as carências.
Também podemos referir que não é bem o reflexo, pois se é que os povos não são
reflexos de seu governo, certamente que não haveria a instabilidade, pois
várias rebeliões sucederiam ciclicamente contra as lideranças. Assim, podemos
apontar que estas posições e valores se imbricam. Um governo é reflexo de seu
meio social, mas também pode emergir durante a sua governação posições
contrárias, deslocadas à sua administração e este se tornando não reflexo da
sociedade onde esteja inserida devido aos excessos.
Quando se houve de
todos os lados coros de denúncias, reclamações, sugestões não tomadas com
atenção ou encaradas com certa arogância, bem como o agudizar das necessidades
dos cidadãos em torno do campo de atuação do governo, pode ser o caminho do
colapso entre a sociedade-governo.

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