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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

LÍNGUA E DEMOCRACIA EM MOÇAMBIQUE



COSSA, Lourenço


A língua é um instrumento de interação e da participação da sociedade em uma nação, o que hipoteticamente pode projetar a possibilidade do desenvolvimento desta mesma. Esta participação nem sempre se faz presente em sociedades onde dentro do mesmo espaço territorial coexiste a diversidade linguística como, por exemplo, na s sociedade s moçambicana s.

Lembra-se que a maioria dos países africanos colonizados pelos países europeus, depois de conquistarem suas independências políticas, administrativas apropriaram-se das línguas dos colonizadores, transformando-as em línguas oficiais e, por vezes, sufocando as suas línguas nacionais conforme as políticas adotadas que na realidade pertence pertenciam às culturas ocidentais.

No permeio desta situação é legítimo indagar-se como é que essa mesma sociedade pode participar de seu meio na situação em que lhe é despida o instrumento que possa efetivar as trocas de saberes, neste caso, a sua língua materna.

Se pode verificar Este assunto é de suma importância, pois a sua abordagem pode provavelmente despertar nos que decidem em torno das políticas públicas a dar se mais visibilidade às línguas e culturas nacionais moçambicanas, afinal o desenvolvimento de um país não pode ser dissociada das línguas e culturas de seus povos.

Temos visto o uso das línguas nacionais nos comícios populares orientados pelos políticos, Presidente da República nos seus deslocamentos a diversos pontos do país até aos mais recônditos de Moçambique, distritos e localidades ou municípios e distritos municipais fora da zona predial da capital. O presidente ou outro membro do executivo orientam seus comícios usando a língua portuguesa, portanto estrangeira na visão ou ótica dos populares – a língua de valungo, dos brancos, ou seja, xilungo. Paralelamente a esta língua oficial adotada como língua que orienta o discurso público é muito comum e sempre se faz a tradução com um intérprete transmitindo em língua local que pode ser Xirhonga, Xitsua, Xichangana, Emácua, Echuabo, Xicena etc.

O Presidente ou a entidade que orienta o comício popular está para mobilizar, falar de certo assunto ao povo, às populações e faz isso, pois sabe que aquele povo não o irá entender se falar em apenas a língua oficial portuguesa, neste  caso xilungu-língua do branco.

O dirigente vai despejar saberes ou informações e muita coisa, sentidos emergem ou poderiam emergir naquela situação. No entanto, perde-se, pois as línguas não estão próximas. Existe o fosso entre elas.

Por um lado, a língua oficial de orientar os discursos públicos e por outro as línguas que medeiam os sentidos das populações, que trabalha em consonância com os valores, com as culturas, símbolos e a religiosidade.

Mediante a esta situação como é que as políticas de desenvolvimento que são concebidas e direcionadas ao povo que tem línguas próprias que se separam e não interagem com a língua oficial irão produzir os efeitos desejados na agricultura, no turismo e na produção de bens variados?

Será que um povo afastado da interação oficial com uso da sua língua é capaz de participar efetivamente na democracia ou na construção de seu país?

Ora, estas são questões relevantes e que merecem ser abordadas continuamente na s sociedade ∕ s moçambicana s, pois envolvem a vida de uma sociedade, de um povo. Por outro sabemos que discussão em torno de questão como essa é interminável devido à relações de poder que a língua envolve, afinal, os detentores da língua portuguesa sentem estar no centro das atenções, do poder, portanto, na situação de “igualdade” como seus herdeiros portugueses se sentiam perante ao nativo indígena falante das línguas vernáculas de Moçambique. Assim, a língua, ao mesmo tempo em que é um instrumento de troca, de interação, ela é por outro lado instrumento da diferenciação. Quando falo perante a um outro sujeito que não tem domínio dela, me sinto em cima e os sentidos que produzo são equidistantes do doutro e sobretudo, o outro enxerga-me em um lugar inalcançável. Ele, até gostaria de interagir em um patamar de igualdade comigo, mas se sente impotente, pois lhe falta este instrumento, língua estrangeira de que eu me apropriei e que orienta os sentidos públicos em Moçambique. Isso me coloca no patamar de poder ser, fazer e querer.

Esta posição, logicamente contrasta com o discurso utilizado para justificar a relevância ou necessidade da presença exclusiva da língua portuguesa, a estrangeira nos discursos oficiais, esta tomada como língua oficial e de Unidade Nacional.

A adoção da língua estrangeira europeia em Moçambique é tida como a solução para se contornar a diversidade linguística e cultural do país, afinal Moçambique tem aproximadamente dezenove (19) línguas distribuídas pelas onze (11) províncias, incluindo a capital do país, Cidade de Maputo que recebe a categoria de uma província. Nisto, depois da independência nacional em 1975, todas as línguas nacionais e seus falantes foram bombardeadas com nomes antirrevolucionários diversos, desde tribalismo, regionalismo etc. Nas escolas e salas de aulas, as crianças sofriam punições diversas se estas fossem surpreendidas a falarem ou a interagirem através das suas línguas maternas. As punições variavam desde palmatórias, reguadas (pequena tábua de madeira em que os professores utilizavam para bater), varas de arbustos, castigos diversos.

Todo este aparato da repressão física e mental contra as línguas e culturas moçambicanas se destinava para a construção de um país unido de Rovuma ao Maputo e do Índico (oceano) ao Zumbo sem a diversidade, mas sim com uma única língua, cultura, a nação moçambicana. Entretanto, as línguas e as culturas moçambicanas resistiram.

Mas é indubitável que a língua é um instrumento de poder e certamente que a elite política negra tenta incansavelmente colocar ou transmitir este poder na maioria dos moçambicanos falantes, ainda das línguas nacionais através da oficialidade exclusiva da língua portuguesa sobre as línguas nacionais.

Contudo, será que o falar da língua materna pode ser um sinal da divisão da sociedade moçambicana?

O que faz os moçambicanos serem uma nação não é o fato serem obrigados a falarem ou terem a língua portuguesa como oficial, mas sim é a partilha de uma mesma história, a colonização, mesmos heróis, a mesma luta travada para expulsão do colonialismo português, a divisão do mesmo espaço geográfico.

Lembra-se que atualmente, visualizam-se discursos que apontam a inconformidade entre os desníveis de desenvolvimento das regiões de Moçambique, algo que é verídico. Tais discursos são acompanhados pelos sentidos belicistas entre os moçambicanos naturais do norte do país e os do sul. Tais sentidos reclamam contra as lideranças do sul desde a independência  e o fato do norte de país ser a mais “pobre” região no país. Uma coisa é que tanto os que se sentem vítimas quanto os tidos como detentores de poder, constituem a elite linguística do poder através da língua estrangeira, portuguesa. As populações falantes das línguas nacionais estão fora destas discussões, mas em contrapartida as suas línguas são tidas como as que perigam a unidade do país.

As mesmas populações estão fora do jogo democrático e a sua contribuição na construção do país se dá por meio do trabalho árduo por detrás das suas enxadas.

Devido à sua exclusão linguística, ficam na maioria dos casos fora da informação, fora do discurso visual que caracteriza a era tecnológica.

No entanto, se as suas línguas fossem incluídas na oficialidade e na construção do país, certamente que produzir-se-ia informações que permitiriam o acesso às inovações tecnológicas de modo a produzirem com eficácia, abundantemente e sobretudo com informações de como comercializarem seus produtos. Sabe-se que um indivíduo aprende mais rápido e eficazmente na sua língua materna do que na língua segunda e pior na língua estrangeira sem conexão possível com o núcleo linguístico da língua a qual pertence.

Assim, as línguas nacionais poderiam ser instrumentos de poder e decisão na vida da maioria dos moçambicanos. Esta não deve ser usada apenas para a difusão de ideologias partidárias, mas sim para orientar todos os sentidos que possam desenvolver as populações moçambicanas.

Se a língua oficial se faz sentir nas populações a partir das traduções de intérpretes e assim dissemina seus valores, porque o contrário não pode suceder, das línguas nacionais se fazerem sentir na oficialidade através da interpretação, imprimindo, assim seus valores e simbologia?

8 comentários:

  1. We speak Swedish and to survive in this world we have to speak at least one foreign language. In most cases it is English.
    Portuguese is not enough in this world. And Mozambique's neighbours all speak English.
    And Swahili did an excellent job in uniting the people in for example Tanzania.

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    1. É verdade Alberts. De fato as classes dominadas devem ter acesso aos códigos da cultura dominante. Não é apenas ter acesso, mas esse acesso deve ter um propósito definido. A apropriação da língua estrangeira não deve servir como instrumento para eliminar a identidade dos colonizados, pois se isso acontecer estes depararão-se com muitos entraves para se desenvolver. A língua materna é um instrumento incontornável de desenvolvimento, dado que permite a mobilidade dos sentidos. Os teóricos já referenciaram que nenhum povo, criança conseguem desenvolver de forma plena usando a língua segunda e, pior, em uma língua que foge dos padrões semânticos e sintáxica da sua língua materna. As línguas europeia estão longe de possibilitar a escolarização plenas das comunidades africanas. Não digo que elas devem ser extintas, mas sim devem conviver com as línguas africanas dentro da diversidade.

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    2. We exist within the context of a language that is our own invention but which controls us in so far as we have lost sight of its origins in our day-to-day practice, and that of our forebears, extending back in history over some 6,000 years or so ... a very small bite out of time's apple, but that is the sort of time it has taken for our language progressively to control us.

      This 'language', which means all that is in common, and present communicatively, as regards structure and the ways of forming new structures, includes all the actual languages that we speak like Icelandic, French, English, Japanese. But it also includes large elements of sound, the ways we look at each other, ways of moving, guessing in our actions, that introduce an uncertainty, a necessary uncertainty, about exactly how and how exactly we are expressing ourselves and what this expression, whatever it is, means for the person who we suppose receives it or who supposes that they receive it. We act as if we understand much of the other person's communication as if it made sense whereas for us it doesn't at all - that is to say we make our own sense out of the communicated non-sense (to us) of the other

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  2. Então o senhor sugere que os políticos deviam dominar as cerca de 19 línguas nacionais para poderem dialogar com o povo?!

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    1. O texto tem como conteúdo mínimo a necessidade de se dar voz às línguas nacionais, pois é exatamente a sua oficialidade e o discurso publico neles que colocará, provavelmente seus usuários na circularidade do desenvolvimento.

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  3. É verdade que passamos por uma fase lastimável em que se dava tareia a quem fosse ouvido a falar a sua lingua (landim)...
    Ouvi tanto falar-se de ensino bilíngue, em que para além da língua portuguesa, seria introduzida uma língua local (com maior número de falante) para facilitar a aprendizagem. Esse seria um passo importante para a valorização das línguas moçambicanas. Só não sei em que estágio se está em relação a este aspecto. Nem sei se seria uma cadeira específica ou uma tranversal aplicada como recurso de aprendizagem?.
    Abraço,
    Moiana

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    1. É verdade, recebemos porrada por sermos surpreendidos a falar a nossa língua materna na nossa escolarização. O Ensino Bilíngue está em andamento, mas timidamente. A ideologia da unidade nacional através de uma língua estrangeira ainda é forte nos órgãos decisores das políticas educativas moçambicana. Os dados das escolas onde o ensino bilíngue foi introduzido mostrou salto qualitativo relevante no desenvolvimento escolar das crianças ou alunos.

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  4. Que tal uma proposta de linguagem visual como segunda lingua depois do portugues? EStou a procura de uma turma de estudantes para um intercambio online sobre cultura e arte local entre brasil e moçambique.
    Trata-se de uma experiencia totalmente online com discussões sobre a cultura local com compartilhamento de imagens entre os estudantes participantes.
    se interessar meu email é kaluhe@gmail.com
    abraços
    katy

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