Dia
21 de março, estava a assistir o programa de notícias da televisão Record, Fala
Brasil e me deparo com a notícia referente a um grupo de criminoso de
aproximadamente sete (7) integrantes, um (1) homem e seis (6) mulheres. O grupo
que se intitula Gang das Loiras
rouba, sequestra e com os cartões de crédito das vítimas fazem compras
gigantescas em lojas, supermercados e em shoppings.
Um
detalhe me chama atenção em torno da descrição do grupo, esta feita pela
repórter da TV Record.
Segundo
a repórter:
-
o grupo é composto por sujeitos de classe
média alta, portanto, pessoas com poder aquisitivo acentuado, um homem e seis
mulheres, todas loiras de boa aparência, bem vestidas, pessoas das quais não se
projeta suspeitas.
Ora
vejamos estes dizeres e tentemos abstrair os sentidos aqui presentes. Primeiramente,
é interessante questionarmos, o que é uma boa aparência neste caso deste grupo
de meliantes?
Que
podemos entender por boa aparência incisivamente vincada pela repórter?
É
do conhecimento de todas as pessoas, negros brasileiros e não só que, um sujeito
de raça negra quando está no meio social, a interpelação com pessoas da raça
branca suscita desconforto, preocupação e repulsa. As mulheres escondem as
bolsas; nas lojas, os seguranças ou as atendentes o colam, monitorando-o até
sair.
Nos
autocarros (ônibus), em um acento (duplo) do lado ocupado por um não loiro
(negro), supostamente não de boa aparência é preenchida depois que não resta
nenhum lugar vazio. Existem casos em que mesmo não havendo mais espaço para se
sentar, sujeitos brancos optam em ficar de pé. A impressão que nos toma é de se
tratar de simples comportamento involuntário, livre de anomalia, afinal as
pessoas estão livre de escolher entre sentar e não sentar.
Num
outro cenário, em um passeio∕calçada sem muita
movimentação de repente uma pessoa branca, provavelmente de “boa aparência” e
maioria dos casos idosa vê uma pessoa, provavelmente não de boa aparência, um
homem negro, a atitude de inquietação, medo deixa se escapar. Se a estrada não
estiver movimentada por carros atravessa para outra calçada∕passeio
paralela.
Quem
não se lembra da agressão, violência e prisão de um indivíduo de raça negra em num
estacionamento de um supermercado de São Paulo?
Este
indivíduo se encontrava em seu carro tipo ecosport junto com sua filha (criança), a espera da
esposa que estava dentro do estabelecimento. De repente se viu abordado com
violência e tirado do carro, chamboqueado (batido com cassetete) pelos
seguranças e em cumplicidade com um polícia que se fez ao local. A sua culpa
era de ter furtado o seu próprio carro. Os sujeitos de não boa aparência são
suspeitos e motivos de perseguição quando tiver bens que apontam o poder aquisitivo.
Em Porto alegre, no início do ano de 2012, dois estudantes congoleses foram
apontados arma de fogo e imobilizado no autocarro por, simplesmente possuírem sapatilhas
de marca Adidas, portanto, caros para sua não boa aparência. A policial da
Polícia Militar de Porto Alegre os apontou a arma, mobilizou aparato policial
para apreender os estudantes africanos.
Na
luta pela procura de emprego, a boa aparência é tida como a mais preponderante
e à frente das capacidades, a formação que o indivíduo possa ter. As
repartições públicas e privadas estão repletas pelos sujeitos de “boa aparência”,
pessoas acima de qualquer suspeitas. Neste cenário, o mais interessante é que a
esmagadora maioria de funcionário das empresas e instituições públicas e
privadas no Brasil é composta por indivíduos de raça branca, exceto nas funções
mais subalterna, neste caso, funcionários∕as
que fazem a limpeza e segurança. Em alguns casos, mesmo nestas tarefas
subalterna, em instituições de grande gabarito valorado, as tidas como de
prestígio, no cenário em que o salário é acentuado são desempenhadas pelos
indivíduos de raça branca.
É
facto que inexistem pessoas de raça branca, loiros na coleta de lixo, loiros
garis. Se existirem é em número bastante reduzida, com percentagem menor, ou
seja, poucas pessoas.
Pessoas
não loiras e, sobretudo negras, não
de boa aparência permanecem em grande número fora do mercado de trabalho e fora
da escolarização superior. Estas pessoas, usualmente frequentam as escolas
públicas, estas isenta de investimentos acentuados em infraestruturas
pedagógicas que elevem a qualidade da sua formação∕escolarização
deste grupo racial. Esta situação é alimentada pela falta de políticas
consistentes de integração racial e leis que podemos significa-las como
familiares e subjetivas que abrem espaço para muitas interpretações nos órgãos
da justiça e, consequentemente não punem e nem responsabiliza ninguém pelos
atos da exclusão racial e social.
Perante
aos cenários acima descritos podemos constatar que em países onde as bases
sociais foram construídas nos alicerces da discriminação racial, na exclusão
social e a violência social, o estar e ser branco, o pertencimento a uma
categoria social projeta vantagens sociais em detrimento de outras raças. À
primeira vista, estes indivíduos, pessoas
das quais não se projeta suspeitas carregam consigo a aparência inofensiva
e desarma os seus pares, portanto, de boa aparência e não só, algo oposto aos não de boa aparência e, em muitos casos
de raça negra, estes alvos de todos os tipos de descriminação, exclusão racial
e social.
Nota:
-
As palavras racial e social não tem o tratamento igualitário neste texto.
Exclusão racial é uma coisa e a exclusão social é outra, apesar de caminharem
de mãos dadas.
-
Informação importante: última semana de abril de 2012, o supremo tribunal
Federal aprovou a constitucionalidade das cotas raciais para entrada nas
instituições de ensino superior do Brasil

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