Está nos discursos político ou
públicos e também nos discursos de alguns cidadãos o pensamento que coloca a
agricultura como a base do desenvolvimento em Moçambique. Estes dizeres podem
refletir o estar da situação rural, mas, sobretudo, aos olhos de quem vive nas
zonas urbanas.
O que impõe a refletir é que de fato,
a população rural de Moçambique é mais significativa em detrimento da população
que vive nas cidades e, é real que a população rural vive da agricultura.
Contudo, há que referir que o viver da
agricultura aqui referida pode não ter a mesma significação para um sujeito em
países onde a agricultura familiar é incentivada com apoios em insumos
agrícolas, tecnologia de precisão, ou seja, um sistema produtivo sistematizado
e baseado nos resultados.
O agricultor ou a maioria das pessoas
que vivem no meio rural em Moçambique cultiva suas machambas (sítios), plantando
produtos destinados para sua alimentação e quando obtém excedentes, algo raro e
difícil de obter devido a falta de assistência tecnológicas, acompanhamento ou
monitoramento e os fenômenos naturais como as estiagens, comercializam seus
excedentes.
O termo usualmente aplicado a este
tipo de agricultura é subsistência. Contudo, a agricultura é significada nos
discursos públicos como a base de desenvolvimento em Moçambique.
É exatamente em torno desta
significação que pretendemos nos debruçarmos, pois para que a agricultura seja
a base do desenvolvimento é necessário que a população esteja sensibilizada,
motivada e com conhecimento profundo acerca da agricultura, seus processos
produtivos, tecnologias que aumentam a produção por hectare e, a cultura de
trabalho autónomo e, sobretudo as políticas objetivas da agricultura revisadas
continuamente para o aumento da produtividade no campo.
Mas para que isto aconteça é
indispensável uma mão de obra estimulada a viver no campo e atualizada em tecnologias
de produção para que executem estas atividades agrícolas como oportunidades de
negócios e não se sentirem diferenciados em termos de valor humano das pessoas que vivem no meio
urbano, ou seja, nas cidades.
Lembra-se que a sociedade moçambicana
se constitui no meio rural. O êxodo das pessoas para as cidades é um fenômeno
recente que se agudizou nos anos pré-independência entre os anos 50 a início da
década de 70 e no pós-independência no período compreendido entre os anos de
1975 logo depois da independência Nacional ao fim da década de 90, neste último
período acelerado com o advento da guerra civil que dilacerou o meio rural,
desiquilibrando a estrutura urbana. Cada
vez mais as cidades ficaram repletas de pessoas de diferentes espaços geográficos
de Moçambique a procura de segurança e também emprego, facilidades de consumo
de bens industriais. Formava-se a partir daí as sociedades urbanas em
Moçambique.
Volvidos décadas vivendo nas cidades,
como é que estas sociedades antes rurais e atualmente urbanas significam a
agricultura em Moçambique?
Para refletirmos em torno desta
questão analisaremos a letra da música Escola de Hortêncio Langa, o músico
tratado por ser da velha guarda e um dos embondeiros da cultura musical de
Moçambicano. A escolha desta música neste texto é devido a filiação discursiva
que a referida letra musical aborda no tocante e a escolarização e o ofício da
agricultura, bem como a suposta valoração cultural e social dessa prática
produtiva. Para analisarmos a letra musical do músico moçambicano Hortêncio
Langa e possibilitar uma compreensão profunda nos apropriaremos da Semiótica
Discursiva, portanto, uma disciplina teórica de linha francesa fundada pelo
Greimas. “A semiótica tem por objeto o texto, ou melhor, procura descrever e explicar
o que o texto diz e como ele faz para dizer o que diz” (Barros, 2007 p.7)
Perante a este texto podemos
visualizar a circulação de determinados sentidos, valores e ideologias no meio
social. A tomada da palavra pelo indivíduo no meio social é fruto da seleção
dentre as várias palavras existentes em circulação nessa mesma sociedade e a
seleção e colocação das palavras no fio do dizer para significar algo surge da
necessidade desse indivíduo imprimir sua marca discursiva, suas convicções, sua
crença e seus valores. Ao selecionar as palavras para dizer o que pretendemos
expressar colocamos no discurso nossa constituição, nossos valores, nossa
cultura. Assim, as palavras carregam valores e marcas idiossincrásica e,
portanto, refletem os valores do indivíduo enunciador e também da sociedade.
Letra
A ku sukela ka tolo (Desde ontem)
U wa ku lova xikolweni (Só está
faltando na escola)
Kasi u djikele kweni u ya dza timbangi yaweno (Afinal, aonde se
desviou ir fumar suruma?)
Nyamuthla u wa timbange (hoje é surumático)
U ta nama tsó u tsó (Sente prazer)
U li matwa u pheti wena hi ku dza
timbangi tsé (Expressa prazer, fumando drogas?)
Ma buku a wu malavi (Não queres
livros)
Ringisa sikomu u
ta tuvika musi wena (experimenta enxada)
Na u yaka Musambiki (vai arder,
construindo Moçambique).
Ao analisarmos na letra Escola de
Hortêncio Langa deparamo-nos com a oposição semântica fundamental que coloca o
alfabetizado contra o analfabeto, este último recebendo valores caracterizados
pelo sofrimento, a ardência e outros sentidos que nos escapam. Por outro lado,
os valores aqui impressos apontam para o sucesso determinado pela atitude de ir
à escola contra o fracasso caracterizado pela experimentação da enxada, prática
aliada ao analfabetismo, segundo os sentidos presentes no texto musical, de
pessoas que negam ou não foram à escola. Estes sentimentos que carregam valores
do bem estar são intermediados pelo comportamento de não sucesso, este,
consistindo no consumo das drogas e ficar na rua.
Sucesso -----------------------------------
não sucesso ------------------------------Fracasso
(euforia) (não
euforia) (disforia)
Ir a escola desviar-se
da escola Experimentar
enxada
consumir drogas
O sucesso de um indivíduo, a não
ardência de um sujeito parte da aquisição de atitude de ir à escola e esta
carrega consigo valores da euforia, um estar almejados por muitas pessoas, mas
que são renegados pelo sujeito indeterminado e presente no texto musical. Este
sujeito se desvia do caminho que o conduz ao saber na escola preferindo o
consumo de suruma (maconha), atitude que faz com que seu conselheiro, o actante
da comunicação, neste caso, o músico a substitui o primeiro compromisso de ir à
escola, mandando experimentar a enxada para ver se arde lá no campo, na
produção dos alimentos, algo que aliás, irá desenvolver o país Moçambique.
Assim, na letra musical de Hortêncio
Langa, a voz discursiva aparece carregar os valores diversos, de pai,
encarregado de educação a mandar ou a apelar seu filho, jovens a ir à escola.
Contudo, esta autoridade é confrontada pela tentação ou desejo do destinatário
de consumir drogas, portanto resposta que não é recebida com agrado pelo
destinador. Perante a este cenário o filho ou o jovem é dado a enxada para
experimentar o quão sofrimento se tem nesta atividade.
Deste modo podemos encontrar as
seguintes relações de valores em cada oposição semântica:
A leitura temática que contatamos
nesta letra o alfabetismo recebe valores que apontam a educação, a cultura
refinada, o emprego confortável de escritório, emprego elitizado, ou seja, bem
estar, portanto estar sociais aliados com aquisições de saberes da escola
formal. Estes valores sociais aceites e valorizados contrastam com a
marginalidade, a criminalidade, a perdição caracterizada pelo consumo das
drogas situação adquirida com desvio do caminho da escola. Por último,
encontramos no texto situações sociais de mal estar associados à experimentação
da enxada significado como sofrimento, castigo, pobreza.
Portanto, os sentidos presentes no
texto colocam a agricultura como castigo, sujeito a quem não quer ir à escola.
Cotidianamente existe muita terra não
trabalhada e a disposição de quem pretenda explorá-la. Jovens e adultos fogem
da terra e evadem as cidades a procura de emprego assalariado. Como o emprego
assalariado é escasso, muitos moçambicanos optam pelo mercado informal,
criminalidade, roubo de celulares, assaltos entre outras práticas inclusive no
sector agrícola, sobretudo como atividade assalariada nas fazendas do país
vizinho, a República da África do Sul.

Meu caro Xikhosa,
ResponderExcluirOs debates sobre o assunto que postou tem sido muito apaixonantes nos meios de comunicacao social ou mesmo nas conversas informais. A avaliar pela participacao que tenho notado nos debates televisivos sobre agricultura, atrevo-me a dizer que a maioria dos Moçambicanos esta ciente de que o sucesso na agricultura pode ser uma das grandes soluções para acabar com a fome e consequentemente catapultar o pais para outros patamares.
O governo tem realizado algumas actividades que mostram o seu comentimento com a agricultutra. Por exemplo, reabilitou o regadio de chokwe. O problema é que na primeira grande colheita de tomate que chokwe teve, houve problemas de precos com mukheristas pois eles queriam comprar o produto a preço baixo do que os produtores aplicavam alegadamente devido a qualidade do tomate. O governo teve de intervir para que as duas partes se entendessem. Depois disso a produção nunca mais foi a mesma, isto é, voltou alguns, se nao muitos, passos atras.
Precisa de alguma insistencia e clareza na estrategia, desde o investimento, producao e colocacao do produto no Mercado.
De fato não basta mobilizar a população rural para a produção sem definição de políticas claras de como encaminhar a produção colhida. Em Moçambique, existem camponeses produtores com vontade de produzir de bens alimentícios, mas esta vontade cai por terra devido a falta de políticas claras do nosso governo. Milho apodrece nos celeiros tradicionais dos camponeses enquanto as populações das cidades sofrem com a falta. Não existe estrada e sistema de logistica para escuar tais alimentos. Conclusão, tudo apodrece no campo e desestimula a produção.
Excluira sociedade urbana moçambicana despreza o papel da agricultura no desenvolvimento. é uma sociedade da geração da velocidade nos escritórios, nos computadores e nos bancos. o que interessa é ganhar dinheiro mais rápido possível. Mas é uma sociedade que precisa dos produtos da agricultura para a sua sobrevivência. E um dos problemas é centralismo do presidente da república com as suas visitas do governo aberto. o presidente Guebuza ocupa todo cenário e isso impede os ministérios aplicar políticas claras através das direcções provinciais e distritais. o presidente da república monopolizou o discurso sobre o desenvolvimento e os seus subalternos só imitam e copiam os seus discursos. E o nosso ministério da agricultura não faz quase nada talvés porque existem intrusos e incompetentes que só passa a vida a comer dinheiro do erário público sem nenhum esforço e mérito.
ResponderExcluirContribuição bem precioso Gaby. Centralismo que afetou e contaminou todo processo produtivo do tecido social de nosso Moçambique. É desconforto para um chefe ver seu subordinado criativo e desenvolvendo a empresa. Ele vê o sucesso dele como ameaça e prefere colocar à frente suas ideias, suas práticas e ponto final. A questão é: aonde vamos com este tipo de atitude e comportamento?
ExcluirExemplos este estar: Comiche está fora do Município da Cidade de Maputo, Daviz Simango está fora da Renamo (felizmente ainda presente na vida dos munícipes da Beira).
Ainda não tinha prestado atenção à letra do Hortêncio Langa. O seu ponto de vista reflecte o da maioria que considera a agricultura uma actividade a ser executada pelos pobres. Prova disso é que os nossos endinheirados/empresários não têm apostado nestas áreas. Devíamos seguir o exemplo da África do Sul. Mal se atravessa a fronteira moçambicana (Ressano, por exemplo), ao longo da estrada principal, o cenário muda. Vê-se citrinos, p exemplo, a cobrirem todo horizonte, com um sistema de irrigação operacional. Até agrada a vista. Como resultado importamos de lá os bens agrícolas para cobrir o nosso deficit de produção.
ResponderExcluirMoiana
(se puder publique o comentário em meu nome...ainda não consigo)
Moiana
Tudo que requeira grandes esforços... ao jovem Moz não lhe interessa. Vida fácil, é mais fácil! :(
ResponderExcluirÉ claro que há alguns empreendedores. É de louvar. Mas a maioria, prefere gabinete e ar-condicionado.
A cultura de consumo que à primeira vista aparece como opção de status na cultura visual através da mídia pode ser, também uma das razões dos jovens não ficarem estimulados para a agricultura para além, é claro aos fatores que a Milou compartilha.
ExcluirComentário pertinente e oportuna para despertar os jovens ao trabalho, pois terra existe e é muita.