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sexta-feira, 4 de maio de 2012

BRINQUEDOS DE CRIANÇAS: bonecas de raça branca como ponto de referência? Que sentidos são construídos?


O contexto moçambicano de ausência de brinquedos convencionais suscitou a inscrição deste texto com intuito de abrir espaço de reflexão acerca da enculturação e a inserção da sociedade moçambicana no contexto “global”.
Começarei esta reflexão com uma narrativa contextual particular sucedido em Moçambique. Um jovem pai moçambicano recebeu de sua amiga, uma oferta de uma boneca de raça branca. Esta oferta destinava-se a sua filha.
Antes importa referir que abordar tema deste gênero pode suscitar reações contrárias não só das sociedades ocidentais, mas também, das sociedades não ocidentais. Tais reações encontram razões de ser na medida em que favorecem sentidos cristalizados, legitimados pela colonização política, administrativa, cultural e religiosa, portanto, estares sociais que projetam conforto da posição dominante e desconforto da não dominante.
Assim, vendo que o universo comercial que o rodeia não disponibiliza bonecas da raça negra, este sujeito pai teve uma ideia de esfumar o boneco, deixando-a com a cor preta e brilhante. Com a nova aparência segundo seus valores endereçou a boneca linda à sua filha.
Perante o estranhamento de pessoas do seu circulo de amizade em face da intervenção na boneca, e, em paralelo às indagações frequentes sobre a ação ele respondia que tinha feito aquela arte pitoresca devido ao fato de que no mercado de seu país não havia uma boneca de raça negra e em caso de haver, caso raro, esta tinha custos altíssimos. Outro motivo apontado por este interventor é que em quase todo meio à sua volta está repleta das figuras representativas do corpo e raça branca, obviamente que sua filha acabaria tendo contato com bonecas brancas, mas ao fazer aquela transformação pretendia fazer com que em sua casa a sua filha tivesse mais contato com a boneca de sua identidade racial e valorizasse o que ela é no futuro.
É comum nas famílias moçambicanas, pais ou encarregados de educação comprar brinquedos, bonecos de raça branca aos seus filhos.
A compra deste brinquedo traz efeitos diversos para futura presença desta criança na sociedade moçambicana como não. Esta experienciação acaba se refletindo na aceitação desta criança/adulto do outro, o branco. Contudo a realidade moçambicana e universal converge nos contrários, projetando oposições no tocante a questões inter-raciais.
O Universo de lazer da criança é repleto de imagens que apontam o sucesso, a beleza da raça branca. O cinema é povoado pelas imagens de brancos desempenhando os papeis de salvador, de heróis, as novelas brasileiras são administradas aleatoriamente nas televisões moçambicanas, não respeitando a classificação de idade. Vão ao ar a qualquer hora do dia e seus conteúdos mostram o negro desempenhando funções subalternas, faxineiro, porteiro, segurança e o pior, mostrando-o como escravo a ser batidas com chibatadas até morrer e paralelamente cenas de romantismo de escravizadores.
Pode parecer como simples entretenimento, mas como explicita Analice Pillar (2009), “a mídia, através das novelas – vem reforçar estas identidades em crise, aliás, a mídia, revistas e jornais, televisão – nos constitui, contamina nosso modo de ver, pensar e sentir”. Cenas de barbaridades de escravização fluem nas telas como fosse normal, algo diferente quando se mostra o sofrimento de judeus perante o nazismo.
Em quase todas as imagens que entram na vida da sociedade através da tela da televisão projetam a imagem da raça branca como ser humano sem marcas da mediocridade.
As palavras que movimentam os discursos sociais e religiosos aumentam a oposição do branco e preto, colocando, assim o preto em disforia, ou seja, diabolizado Comportamentos e atitudes não abonatórias são usualmente tipificados como preto, negros:
·        A coisa estava preta;
·        Uma nuvem preta baixou em X ou Y.
O contraditório é que tal discurso da pretização maléfica dos fenômenos e comportamentos se cristalizou inclusive nos discursos de muitos indivíduos da raça negra. Estes sujeitos pronunciam este tipo de vocabulário sem refletirem acerca da origem ideológica e sobre os efeitos destas palavras sobre suas vidas.
Assim, sem se dar conta o próprio indivíduo da raça negra acaba perpetuando práticas de discriminação contra ele mesmo.
A presença maciça das imagens da raça branca seguida de configurações específicas tendenciosas no cotidiano das crianças africanas, moçambicanas em particular prepara esta criança negra a aceitar o outro, e paralelamente projetar esse outro a patamares superiores e ao mesmo tempo as subestimando. De outro lado, estas imagens projetam o indivíduo da raça negra perante a raça branca como objeto de interesse e de manipulação.
Assim, perante o tempo em que vivemos na atualidade, repleto por imagens diversas em todo lado é salutar que o sistema educativo promova uma visão crítica sobre as imagens que poluem o meio envolvente de modo a nos posicionar e projetarmos significados que possam advogar em favor das nossas identidades, das nossas culturas. Não há nenhum inconveniente em aproveitarmos dos ganhos tecnológicos presentes na atualidade, mas a aquisição desses meios não deva implicar nossa extinção como povo com identidade e valores próprios.

2 comentários:

  1. Bom texto mas este leva me a concluir que estamos a nos deixar dominar pelos homens de outras raças, ja a muito tempo.
    e que na sua dominação usam formas não identificadas, para o efieto, sendo que uma delas e o simples facto de sempre que se manda a africa no seu geral briquendos para as nossas criação, estes são de raças tidas como dominadoras, ou de pessoas com um poder intelectual superior que a nossa, o que na verdade e um simples paradigma da evoluvação homana.

    Alem disso tenho ouvido muitos negros a descriminarem si por dizerem que negro não pensa e e pago para executar e nada mais.

    e por fim digo que gosto dos textos que tenho vindo a ler neste blog e podes contar comigo como o seu maior comentador sempre que eu ver algo que interecame

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  2. Eis o texto baixo que escrevi sobre a questão das bonecas e que não consegui postar no teu blog.
    Abraco.

    Padrinho, até que enfim consegui me cadastrar e conseguir postar um comentário. Eu já vinha seguindo a muito tempo as tuas reflexões neste espaço, desde já ti parabenizo.
    Concretamente ao post, em primeiro lugar, dizer que eu concordo com a tua explanação e o reforço ainda mais. Acredito que para um país que foi colonizado por vários anos, como é o caso de Mocambique, igual que Guiné-Bissau e em geral, aos Países que foram subjugados ao domínio colonial, é "normal", em primeira instancia pensar que essa enculturacao, como bem disseste, era um dos objectivos do colono, e continua a ser, só que de uma outra forma.
    Digo isso, pensando não só na boneca oferecida ao pai dessa criança, mas a todo o legado deixado pelos colonos. Isto é, a forma como assimilamos o jeito, o estar, a forma, e dizeres do colono no nosso meio. Esse é um processo pelo qual os ditos países colonizados tem que
    passar, ou seja, trabalhar no sentido de recriar o que é "nosso', para o bem da geração vindoura.
    Este teu post me lembra uma apresentação que eu assiste meses atras, aqui no Centro Cultural Brasileiro. Um grupo de pessoas e mais Brasileiros, criaram um espaço de reflexões chamada "Café com Letras”, onde ao final de última semana de cada mês, é convidada uma
    personalidade Guineense, um cidadão, estudante, investigador, para expor e discutir sobre o seu trabalho. Muito interessante o espaço.
    Então, foi apresentado um trabalho de um Senhor, que agora não lembro o nome, sobre o "Fidju d'ós". O nome é em crioulo, e o significado em português é "Filho de osso". O Fidju d'ós, é um osso de mão de vaca, que depois de passar por um processo de desinfeção, ela vira uma
    Boneca. Resumindo, o Fidju d'ós tem muitos significados, ora usada pelas crianças tempos atrás para brincar, ora usada para algumas mulheres inférteis para poder conseguir ter um filho.
    Num dado momento de discussão, chegou-se a falar de bonecas com feições ocidentais versus, Fidju d'ós, que hoje em dia invadiram o consciente das nossas crianças como sendo algo ideal, ou seja, a beleza padronizada a ser seguida.
    Só para teres uma ideia, a maioria das pessoas que estavam a assistir a apresentação, tem muitos jovens inclusive, muitos não sabiam o que é o Fidju d'ós. A boneca que se conhece mundialmente, até nessas latitudes, é a Barbie, o sonho de consumo de meninas Europeus,
    Americanas, Asiáticas, e Africanas.
    Grande abraço, a partir de hoje vou passar a comentar no espaço.
    Junior José

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