A
exclusão racial e social no discurso e na prática & Cotas raciais nas
Universidades brasileiras: solução ou problema?
Personagens:
Xikhosa e C.O
C.O:
E a desigualdade entre os “bem aparentados” e os “mal de aparência” é enorme. E
acho este negócio de cotas um absurdo, afinal as oportunidades deveriam ser
iguais para todos. A cota discrimina mais o indivíduo.
XK:
Bom! Considero nossos pontos de vistas diferentes e isso é aceitável dentro do
convívio das pessoas.
Contudo,
dizer que as cotas discriminam ainda mais o indivíduo é um pouco contraditório
se termos em conta os poucos resultados obtidos em pouco tempo por esta
política de correção dos problemas de exclusão racial. Como é que discriminaria
mais se já está a discriminar certos sujeitos sociais há mais tempo?
O
apagamento da diferença é quase impossível de ser, pois na verdade somos
diferentes e também ninguém é obrigado a gostar do outro sem a sua livre
disposição. Mas respeitar esse outro dentro de parâmetros pré-estabelecidos em
termos de acesso aos bens necessários à sua vida é o que importa no momento.
Não tem importância o não gostar e ninguém é punido nos termos da lei, mas sim se
este promove a exclusão social, ou seja, vedando o acesso aos bens necessários
a sua vida ou praticar injúrias raciais. Isso sim é punível nos termos da lei.
Pode
não gostar, mas o convívio no mesmo espaço de partilha é o que importa. As
cotas nas universidades vieram exatamente para permitir que este convívio aconteça.
Sabe-se
que ninguém ou poucas pessoas estão predispostas a dividir espaço (espaço representa
o poder), mas quando se traçam medidas, normas de partilha, cada um tem a
liberdade de fazer o que quiser no seu espaço, desde o momento que respeite o
espaço do outro.
Quem
acharia justo que perante o seu sofrimento, por exemplo, na enfermidade, alguém
o dissesse – aguente que sairá um navio dentro de poucos dias indo à região
polar buscar remédio para sua cura, mas em contrapartida, o enfermo vê ou tem
conhecimento da existência de uma caixa de tais medicamentos em uma sala ao
lado?
Perante
a este cenário, que reação projetariam os mais lúcidos presente no cenário
descrito?
C.O:
As oportunidades é que devem ser iguais. Este negócio de cota é ideia de quem
afinal?
XK:
Todos os segmentos da sociedade concordam que as oportunidades devem ser iguais
a todos sem distinção da raça, credo, sexo, mas a realidade aponta para estares
em oposição a esta concordância. O sistema de exclusão racial inicialmente
adotada como política administrativa e religiosidade criaram comportamentos excludentes
que se enraizaram, e se cristalizaram.
É
fato que o maior número de pessoas discriminadas pelo sistema de exclusão é o
negro aqui no Brasil. Todos os segmentos da sociedade sabem que no mercado de
trabalho, em um cenário entre dois sujeitos racialmente opostas, branco e negro
a preferência cai no branco e descarta-se o segundo. Em termos salariais, quem
recebe mais no mercado de trabalho é o branco, mesmo na situação que os dois
desempenham a funções similares.
Para
um olhar desatento, esta situação aparecerá tratar-se, simplesmente das
qualificações profissionais e esquecerá as causas dessa não qualificação ou
desigualdade dos salários em uma mesma categoria. Esquecerá ou quererá ocultar
os fatores que são causadores dessa não qualificação do segundo sujeito, que na
verdade é o racismo e a exclusão racial.
Perante
a percepção deste problema a sociedade se mobiliza para buscar alternativas que
possam criar o convívio harmônico, a partilha dos bens comuns dentro da
igualdade das oportunidades, e, essa alternativa de busca da solução encontrada
é a implementação constitucional das cotas nas universidades. Para a felicidade
da sociedade é que esta solução está a resultar efeitos desejados. Desde 2004
para cá as universidades implementadoras e percursoras desta política de
inclusão formaram profissionais competentes que auxiliam no desenvolvimento do
Brasil. A coisa mais bonificada é que em muitos casos os mesmos sujeitos
acolhidos por este tipo de solução chegam a obter resultados elevadíssimos.
Isso é o que importa na atualidade. A sociedade determinou esta política e já
era tempo de assim proceder. Portanto a ideia é da sociedade lúcida brasileira.

Ótimo texto! Acho que a maioria dos argumentos contras as cotas são realizados por pessoas que não focam na questão do porque, hoje em dia, ser tão importante essa implementação... Ou seja, uma parcela provavelmente não analisa que há a necessidade de cotas tendo em vista que o racismo está entranhado nas práticas cotidianas, invisibilizando e inviabilizando a movimentação social... E também porque o foco está em "si mesmo" e no que a sua camada "social" perderia... E também porque adotam o discurso da "direita" (como este de que as cotas seria uma forma de discriminação, hahahaha, chega a ser cômico esse argumento), que argumenta para manter os seus privilégios e dogmas mesmo... Bah, há tantos também... Mas que bom que o Brasil está avançando nessas políticas importantes! Bjs
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