“Lutei contra a
dominação Branca e lutei contra a
dominação negra. Eu
brindei um ideal de uma
sociedade democrática e livre na qual todas as
pessoas vivam juntas,
em harmonia e em
iguais qual eu espero viver e alcançar”.
Nelson Mandela
Nos
últimos quatro (4) anos, a mídia impressa e televisiva tem nos brindado com
discursos que apontam desconforto de certos líderes africanos em relação à
circulação de sentidos que questionam a sua governação. O conteúdo destes
sentidos desconfortáveis para as elites políticas residem na maneira como as
sociedades estão sendo governadas, ou seja, como os governados presenciam e vivenciam
a corrupção, a exclusão e as ostentações desmedidas praticadas por seus
governantes e, sobretudo pelo descaso para com as políticas públicas.
Por
vezes, a impressão que salta aos olhos das sociedades é de que as elites
políticas que na realidade fazem parte também das elites econômicas, antes
heróis nacionais dos países africanos se transformaram em elites brancas sob a
“máscara negra”¹, “o artifício do homem branco inscrito no corpo do homem
negro”², ou seja, elites que são o reflexo da “visibilidade da mumificação
cultural na ambição declarada do colonizador de civilizar ou modernizar o
nativo, que resulta em ‘instituições arcaicas inertes [que funcionam] sob a
supervisão do opressor como uma caricatura de instituições férteis’”³.
As
práticas antes protagonizadas pelos colonialistas ocidentais, a humilhação, o
desalojamento dos nativos em suas terras férteis, a tortura, o trabalho forçado
e as cobranças de impostos sem retorno sobre suas vidas, portanto, coisas que
foram motivos de repúdio ao ponto de se pegar em armas e lutar-se para
expulsá-los estão tendo destaque no momento atual, pós-independência. Esta
situação coloca certos segmentos da sociedade a questionarem das reais
intenções dos heróis nacionais no que foi a mobilização do povo contra o
colonialismo ocidental.
A
coisa que o colono europeu branco não conseguiu fazer em 500 ou a 100 anos da
colonização no continente africano, os heróis (colonos africanos pretos),
pessoas assimiladas escolarizadas e munidas pelas ferramentas psicológicas e
valores do colonizador europeu, sujeitos que se transformaram na elite política
depois das independências conseguiram em menos de 20 a 40 anos. Mais do que
nunca, o combate aos valores dos povos africanos, as línguas, a medicina, a
religiosidade, a estrutura econômica e política foi ou está sendo avassalado.
A
questão que se pode colocar é como estes indivíduos conseguiram provocar estes
deslocamentos em pouco tempo das independências de seus países?
Como
é que o colonizador europeu não conseguiu efetivar seus anseios da civilização
e eliminação das culturas, línguas e valores africanos em aproximadamente 80 a
100 anos da colonização administrativa?
A
resposta ou uma das respostas para esta questão é a seguinte:
-
Durante os anos da colonização, exploração e humilhação dos povos africanos
pelos colonizadores ocidentais, a cultura, as línguas africanas serviam como
instrumentos de resistência contra a ocupação colonial. Todas as populações
africanas falavam suas línguas nativas, desenvolviam seus códigos, símbolos e
produziam instrumentos eficazes para se contrapor às ideologias colonizadoras. Terminada
a colonização europeia dos brancos surgiram novos colonialistas, arrogantes e
ditadores. Os novos exploradores africanos da pele negra.
Os
sucessores dos colonizadores e exploradores europeus introduziram instrumentos
ideológicos pró-eurocêntricos, que propiciassem a eliminação das simbologias,
das culturas, línguas africanas nativas. Conseguiram catalisar este processo
porque são negros e aos olhos de “seus povos”, dos povos africanos estes
indivíduos eram∕são libertadores, seus
heróis.
Esta
situação os colocou na posição privilegiada e tiveram a oportunidade de
promoverem políticas que lhes constituíam, afinal a formação deles se deu
dentro do processo da colonização onde o pensamento iluminista é relevante. No
permeio da crença do herói, por terem unidos seus povos contra a ocupação
colonial europeia e, sobretudo por pensarem que a expulsão dos brancos abria a
oportunidade de guiarem suas vidas, determinarem seus destinos, construírem
seus países de acordo com suas ansiedades, os povos africanos se desarmaram.
Relacionaram a questão da exploração com a questão da pele, da raça, portanto,
coisa do colonizador.
Contudo,
as políticas iniciais depois das independências se concentraram na eliminação
de todos os instrumentos que proporcionavam a união e colocavam os povos
africanos unidos e fortes para se opor contra a colonização, as línguas e as
culturas africanas.
Conquistadas
as independências “esqueceu-se” que estes instrumentos culturais são os que
exatamente os fortaleciam e os faziam enriquecer dentro da diversidade.
Os
povos africanos, de certa forma consentiram serem submetidos às políticas do
apagamento de suas identidades, suas culturas em nome da coesão social, já que
dentro dos territórios havia a diversidade de línguas e culturas. As teorias
coloniais da homogeneidade e do perigo da diversidade que fizerem lá no
continente europeu se exterminarem muitos povos e nações em nome da necessidade
da existência de uma nação, de um só nome, uma cultura, uma só religião,
somente uma língua estavam se instalando e efetivando entre os africanos,
justamente pelos negros. As ansiedades dos colonos brancos estavam se concretizando,
só que desta vez protagonizados pelos negros, os mesmos que lutavam contras
estas práticas nefastas.
As
ansiedades coloniais não se restringiam apenas nas simbologias africanas, mas
aos diferentes objetos de valor como os recursos naturais, exatamente como os
colonos e exploradores europeus ansiavam.
Ao
se darem conta, os povos viram∕veem
suas terras usurpadas e devolvidas aos anteriores usurpadores, os colonos
brancos, tudo isso feito em nome do desenvolvimento.
Na
concepção das políticas do desenvolvimento as teorias da atração dos
investimentos estrangeiros na agricultura, na mineração entre outros, promovem
o êxodo das multinacionais, singulares ocidentais e asiáticos ao continente
africano e internamente pouco se promovem na potencialização dos nacionais
nativos em ferramentas que os possibilitem explorarem seus recursos e saírem da
pobreza a qual estão sendo submetidos pelas atuais elites políticas negras.
Sabe-se
que a construção de um país leva tempo e é um desafio, mas há que se considerar
que país como Moçambique não é um território de emigrantes como aconteceu nos
países americanos e da Oceania. Moçambique é um país constituído pela
diversidade étnica linguística determinada, como suas estruturas familiares e
de valores bem localizadas. Na sua história, a questão de dominação ou governança
sempre existiu. Contudo, apesar de possuir esta história de subjugação jurídica
e administrativa de impérios, a questão de diversidade de línguas, de valores
foi sempre respeitada.
É
a partir das tentativas de marginalização e eliminação das formas de viver, das
línguas, dos valores milenares, e da entrada forçada de novos valores de outros
povos não africanos que alguns setores sociais questionam a teoria da
independência sobre o colonialismo europeu. Os fatos contextualizados apontam
que ainda não se alcançaram as independências totais e completas como se supõe
se haja. Ao se expulsar os colonialistas ocidentais europeus, apenas se substituíram
estes pelos colonialistas pretos mascarados, seus discípulos. Cumpria-se “a
fantasia do nativo de ocupar o lugar do senhor”4.
Nas
fases derradeiras, próximo às independências, o colonialismo havia formado seus
sucessores, pretos munidos pelo aparato teórico e comportamental da exclusão,
arrogância e ditadura. Na verdade, os heróis escolarizados pelo colono, ao
mobilizarem as populações africanas, maioritariamente sem a escolarização
eurocêntrica colocou na sua mente a esperança da liberdade de se sentirem
africanos de acordo com as suas diversidades e tomarem as rédeas de seu
desenvolvimento.
Eduardo
Mondlane, o primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique
(FRELIMO), assassinado durante a luta armada de libertação destacou em seu
discurso que “os elementos positivos da nossa vida cultural, ‘tais como as
nossas formas de expressão linguística’, as nossas músicas e danças típicas, as
peculiaridades regionais de nascer, crescer, amar e morrer continuarão depois
da independência para florir e embelezar a vida da nossa Nação. ‘Não há
antagonismo entre as realidades da existência de vários grupos étnicos e a
Unidade Nacional’” (MONDLANE, 1967 p.79).
Contudo,
o que sucedeu depois da expulsão dos colonos brancos foi a substituição pelos
colonos pretos e estes apropriaram-se da máquina repressiva, perpetuando as
mesmas humilhações que antes sofriam contra os colonos europeus, só que desta
vez protagonizados pelos seus próximos em termos da cor da pele. O fato de
obterem saberes diferenciados europeus e o poder de interditar a circulação das
línguas africanas nativas, antes seus, coloca-os diferentes dos demais,
configuram a personalidade europeia, ou seja, brancos negros –
valungo-va-ntima.
Para
não se sentirem ameaçados pelos seus próximos da pele recorrem aos seus
instrutores colonizadores brancos, “patrões” no dizer de Samora Machel e,
trazem de volta para o continente africano, empresas multinacionais,
“organizações não governamentais” (não todas) para desalojarem as populações, humilharem
e matar, os mesmos pretos cujo eles fazem parte, visivelmente. As empresas
multinacionais e alguns governos ocidentais são a retaguarda de muitos líderes
e governos africanos ditadores. Enquanto estes servirem os interesses
ocidentais, estes governos estão acima de qualquer suspeita. São governos do
povo, democráticos. Esta posição apenas muda quando tais governos tentam ser
autônomos e querem definir suas políticas. A partir deste momento passam a
envergar a camisa de ditador, tirano.
Internamente,
estes governos investem pouco na intelectualidade e populações locais e fazem
lobbies com as organizações e entidades estrangeiras para fraudar as eleições
internas ou para obterem auxílios financeiros e tecnológicos que os deem
suporte para conterem as insatisfações populares muita das vezes generalizadas
em seus países.
Exemplos
dessas são inúmeras. Podemos recorrer no artigo que lançamos recentemente “O NEOCOLONIALISMO DO BRASIL
SOBRE MOÇAMBIQUE” (2012),
onde temos as empresas como a Mozal, uma empresa que produz alumínio destinado
às empresas como Boeing, altamente poluente e instalado na cidade, no meio das
povoações, ou seja, em um raio de 100 quilómetros desta multinacional que
emitem substâncias tóxicas (fato sempre refutado por esta empresa e pelo governo
apenas) existem aproximadamente mais de um milhão de habitantes. Se esta
empresa depara com algum problema no seu processo produtivo opera em sistema
sem filtro, o chamado by-pass e sem fiscalização independente.
Dentre
outras empresas de extração predatória de corte de madeira nacional em bruto
para o mercado asiático e que em alguns casos operam na ilegalidade, temos a
empresa mineradora brasileira, a Vale. Esta empresa extrativa já arrancou a
população nativa das suas terras e de seus ancestrais os colocando em lugares
sem condições adequadas e humilha-os a seu bel prazer quando estes reclamam.
Quando as populações reclamam, o governo, em detrimento de procurar
satisfaze-los manda seu aparato policial repressor para esmaga-los sem piedade.
Por
outro lado assinam protocolos com fazendeiros brasileiros, japoneses e
sul-africanos brancos na sua maioria para usurpar as terras dos nacionais. A
construção de reserva dos animais para o turismo têm outros desdobramentos
repletos de atos colonizadores. Desalojam-se as populações de suas terras,
portanto circunvizinhas dos projetos de parques naturais e também os que vivem dentro
das áreas abrangidas por tais investimentos das reservas para os animais, mas
sem a inclusão destes nos benefícios futuros advindos de tais investimentos.
Proíbe-se e penaliza-se qualquer membro da população no entorno das reservas
que matar qualquer animal para sua refeição ou quem matar um animal que se
invadiu destes locais e posteriormente dilacerou sua machamba.
Parque
e os animais devem ser defendidos contra ações da caça furtiva. Até ai
entende-se, mas contraditoriamente assiste-se a vinda dos antes colonizadores
europeus, pessoas singulares, elites, ricos, personalidades públicas e anónimos
europeus para realizarem a chamada caça desportiva! Enquanto um membro da
população local cujo aquele território lhe pertence de fato e, é de seus
ancestrais é proibido, penalizado e morto se for encontrado a praticar a caça
para sua refeição deixa-se, permite o colono a matar os animais para
simplesmente praticar a caça desportiva.
Que
governos temos no continente africano? De africanos para africanos ou de
africanos para os europeus?
É
urgente a adoção em países africanos de políticas que protejam os africanos,
promovendo o bem estar e, sobretudo políticas públicas que deem visibilidade às
línguas vernáculas, às culturas, pois nenhuma educação e desenvolvimento de um
povo se concretizam de fato sem se dar destaque as simbologias características,
as formas de significar a vida e o meio deste mesmo povo. Isso não quer dizer o
isolamento, mas a contextualização, se acontecer a interpelação com o outro.
¹(FENON,
1986).
² e 4(BHABHA,
2005 p.76).
³(RUSHDIE,
1988 apud BHABHA, 2005 p. 75).
COSSA, L.

O texto reflete uma percepção do quotidiano urbano vivenciado pelos povos africanos nos dias de hoje.. Pretendo voltar pra fazer um comentário mais aprofundado.
ResponderExcluirParabéns pela colocação.
Saudações.
De fato. Seu comentário é de grande valor, pois pode/rá proporcionar mais significados ao assunto do texto. Aguardamos.
ResponderExcluirDas postagens para a reflexão contínua que propôs aqui, com certeza esta é a que mostra uma realidade nua e crua das sociedades subjugadas sob qualquer tipo de regime. E no nosso caso (Africano), se mostra mais visível porque se acredita que ainda não somos independentes totalmente. É Preocupante essa situação, pois tenho minhas duvidas se isso um dia vai mudar. Mesmo com a existência da chamada "Massa critica" urbana das cidades Africanas. Esses a exemplo de outra massa noutras latitudes, acabam por perder a sua essência pois são cooptados pelo sistema. O engraçado é que isso ocorre de uma forma natural pela situação da realidade em que a pessoa se encontra. Para ser mais nítido e como exemplo, falo da juventude recém formada para os desafios do País e do Mundo. Imbuído de ideias de desenvolvimento, reforma, criatividade e critico feroz do destino do País, a nova geração de Doutores e afins, se mostra com muita vontade mudar as coisas nos quais acredita que não estão a ser bem feitas. Nem vou me alongar muito na descrição do que viria a acontecer, pois o fim desses jovens, a nova geração, nós todos sabemos.
ResponderExcluirParabéns mais uma vez pelo Texto
José F. Junior
PS: Envio aqui mais uma vez, porque não consegui enviar o comentário no Blog.
Abraço.